latentes viagens

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Sempre que falamos sobre as religiões de origem africana, em especial o candomblé, nos remetemos, quase inconscientes, para a capital da Bahia, Salvador, a cidade brasileira com o maior número de terreiros por metro quadrado. As curiosidades e os mistérios do candomblé por muitos anos foram relegados a um plano inferior, de segunda ordem. Ao interpretá-lo pela ótica do catolicismo e reduzí-la a uma religião profana, muitas pessoas erroneamente estabeleceram um paralelo inadmissível entre os orixás e os santos da cristandade.




A figura de Exu, o orixá mais controverso e difícil de explicar através dos parâmetros morais estabelecidos pelo cristianismo, ficou associada à figura do diabo. Ao se deparar com as imagens de Exu - este representado por uma estátua que ostenta o pênis em permanente ereção e pelas cores vermelho e preto - o homem branco não teve duvídas, é a encarnação do coisa ruim. Mas não é bem por aí. As cores vermelho e preto nos remete às paixões e aos sentimentos mais primitivos dos seres humano. O vermelho, segundo os hindus representa o chakra da genitália responsável pela produção da energia genésica que quando sublimada é capaz de despertar a criatividade e conceber as mais grandiosas obras do espírito, no entanto, dentro do contexto africano, exu aparece como o mensageiro, como o elo entre os orixás e os homens. Brincalhão, astuto, inteligente e principalmente inconsequente exu não é exatamente bom nem mal, apenas exemplifica a nossa ligação mais forte com o planeta Terra. Apreciador de carne de bode, azeite de dendê, cachaça, traz a fama de ser um galanteador e de admirar muitas mulheres, no entanto, podemos colher relatos que desmitificam essa imagem e que provam justamente o contrário, não é raro ouvir dizer que exu se apieda daqueles que se entregam incontinentis às volúpias carnais. Não temos como limitar a área de atuação deste ser que muitas vezes não foi reconhecido como um orixá. Exu é uma das potências da natureza e atua nas esferas mais próximas dos seres humanos, é o dono das encruzilhadas e o responsável pela abertura dos caminhos.



Uma das curiosidades que podemos perceber ao estudar seriamente as religiões de origem afro é a inexistência, em sua própria terra, de uma religião destinada a fazer e cultuar o mal. Na magia negra podemos destacar o surgimento do vudu, principalmente no haiti. Uma das explicações para o surgimento destas seitas estaria estreitamente ligado ao mal que o homem branco fez ao negro. Ao retirar a sua liberdade e reduzi-lo a um animal de carga os negros que não aceitavam a sua condição e que possuíam a faculdade de comunicar com os espíritos faziam alguns feitiços para que seus agressores fossem punidos pelo mal que praticavam. Era um tipo de vingança e de reação à exploração indiscriminada a que eram submetidos. Dentro deste contexto, é mais fácil entender o porquê do nascimento e surgimento destas seitas no meio de nós. Apesar de muitas pessoas procurarem as seitas ligadas à linha esquerda no intuito de tão somente prejudicarem outras pessoas, seja por vingança ou por inveja, ou por mero capricho de sua vontade, isto não quer dizer que naquela época elas desempenhavam a mesma função e da mesma forma, ou seja, não era uma troca material, de favores, ou a venda de sua alma ao diabo, mas uma reação natural do ser humano diante das adversidades e da privação injusta de sua liberdade. Era um ato de extremado desespero. A partir deste ponto de vista fica mais fácil compreendermos o porque de tantos preconceitos associados ao candomblé. A moral das religiões africanas de maneira alguma correspondem aos nossos conceitos de bem e de mal, ao praticante do candomblé é lícito desejar e querer qualquer coisa, mesmo que para isso prejudique outra pessoa. O desejo, se existe, pode e deve ser realizado no aqui e agora, e não num céu transcendente. A rapidez e a imediata solução dos problemas é um dos fatores que seduz e leva milhares de pessoas ao encontro do candomblé. Todavia a beleza imanente ao culto, as vestimentas dos orixás, sua dança e todo seu simbolismo representam de fato, a sua maior riqueza e herança. Ao som dos atabaques os orixás se manifestam através do médium e dependendo do dia e da festividade cada um é homenageado e adorado segundo suas próprias preferências. Xangô representa a justiça e por muito tempo foi cultuado na figura de são josé, oxôssi o exímio caçador das matas na figura de são sebastião, ogum, o orixá da guerra e senhor dos metais é são jorge, santa bárbara iansã, etc... O candomblé é uma religião essencialmente oral e seus conhecimentos são transmitidos de geração em geração... Cada orixá possui uma característica que lhe é própria e imanente, uma pessoa feita no santo ao se deparar com alguém dançando é capaz de identificar o orixá sem recorrer as roupas e aos adereços. Xangô e seu machado, ogum e sua espada, oxôssi e seu arco, etc.. As danças protagonizadas por Xangô e Iansã são caracterizadas pelas firmeza e precisão dos movimentos e um pai de santo experimentado sabe quando as pessoas estão blefando e fingindo incorporar o orixá. Uma coisa que muito chama atenção a quem não pertence e não conhece os domínios do candomblé são as circulações de dinheiro entre os pais de santo e seus clientes e entre os pais de santo e seus filhos de santo. Os clientes geralmente recorrem ao terreiro interessados nas realizações de seus desejos, geralmente ligados a problemas de ordem econômica, amorosa e de saúde. O prestígio do terreiro também está diretamente ligado a quantidade e à qualidade de clientes que o mesmo possui. Não é raro os terreiros que possuem políticos, artistas e famosos em seu meio. Os filhos de santo possuem suas obrigações e estas podem ser classificadas de diversas formas, como sacrificio pessoal, ajuda nos preparos das festividades e de ajuda efetivamente material. Ao se tornar filho de santo o iniciado penetra nos círculos mais íntimos e começa a fazer parte de fato daquela "família".

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GINO RIBAS MENEGHITTI

Escritor, Filósofo, Poeta, Ensaísta, Político, Rapper, Dependente Químico, Militante Ativo do PC do B, Técnico Administrativo do CEFET, Membro de Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e Grupo Levanta de Novo. Ministra Palestras Gratuitas sobre Dependência Química e assuntos relacionados a Política, Educação e Cultura em Geral. Áreas de Interesse: Filosofia, Literatura, Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Cinema, Música, Biografias, Dependência Química, Estudo das Artes e Religiões.

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A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

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