latentes viagens

Este espaço é um experimento aberto, amplo, intuitivo e original. Liberto das amarras acadêmicas, sistêmicas e conceituais, sua atmosfera é rarefeita de ideias e ideais. Sua matéria prima é a vida, com seus problemas, desafios e dilemas. Toda angústia relacionada ao existir encontra aqui seu eco e referencial. BOA VIAGEM!

 
Minha vida monótona e entediante está para ser suprimida pela criação artística de um livro de alto valor literário, assim sonha acordado um vil poeta apaixonado, pelas linhas escritas com amor, pelos versos ignorados pelo ódio, pelos blasfemados bocejos de indiferença, irei seguir o meu caminho e descortinar em mim mesmo a minha luz, pois já não tenho força nem paciência para afugentar os meus e os seus fantasmas. Que eles possam se aventurar e sorrir de nossas pequenas mazelas e quimeras, que nos perdoem a visível fraqueza imanente na alma. Nossas roupas, sujas e feias, desbotadas e velhas, sirvam de avisos aos impertinentes amigos que docemente caminham de braços dados com a ilusão. Fui peregrino do sonho, amigo fiel da noite, ancorei em bares, testemunhei e incitei calorosos debates filosóficos, o imprescindível ócio destilado nos bares e conversações, entre os poetas e os bêbados encontrei o poço, o fundo do poço, o meu último pedido de ajuda e o meu primeiro pedido sincero de perdão. Mergulhei num mundo aparentemente hostil e divinamente atraído por esta atmosfera nauseabunda, me deparei com figuras ilustres, com discursos eloquentes, com poemas sendo declamados no auge etílico das madrugadas sem fim, das saideiras sem conta, envolto em densa cortina de fumaça, minha alma abrigava os mais torpes e puros sentimentos, a cada mijada um hino de louvor ao Divino Arquiteto da Criação, ode e reverência ao Pai, àquele que nos observa e aguarda sem nenhum tipo de punição ou julgamento, apenas espera o despertar do filho pródigo. Anos despendidos em torno de discussões vazias e sem sentido, meses sendo gastos em devaneios e ilusões, respirei o ar alcoviteiro de bestiais recintos sepulcrais, meu corpo sendo lentamente consumido pelo delírio e pela angústia: a verdadeira solidão nasce do amor irrefletido pela multidão, pelo barulho, pelo agito e burburinho dos grandes encontros, das grandes festividades. As músicas eram pequenos arranjos de grandes proporções deste rito dionisíaco e insano, as minhas lesadas lentes retiveram as mais belas imagens nos porões indeléveis da memória, arquivos vivos de vampiros, legião de demônios e profetas, heróis da decadência, poetas da última quimera, artistas de um barroco tardio e de um rococó refinado, experimentei a mineiridade, a sua doce hospitalidade, a cozinha é a sala de estar do mineiro, estas e outras curiosidades podem ser vistas e revistas nesta obra que irá ser consagrada a todo espirito que se respeita e que se preza, ode ao poeta, ele ainda vive, em ti, em mim e num além mais...

Além dos academicismos e títulos existe vida pensante sob a superfície da Terra. Além do cultivo diário de hábitos sadios, enriquecidos de reflexões, conhecimentos disseminam a chave da superação e da transcendência. Aspectos históricos revelam a singularidade de nosso povo, marcado a ferro e fogo pela exploração e pela exclusão nas tomadas de decisões importantes para nortear o destino do país. O "povo brasileiro" constituído de uma nova raça miscigenada (negros, índios e brancos) sempre foi excluído e marginalizado por não possuir um padrão europeu de civilidade. Inúteis tentativas de ocidentalização do saber indígena e negro ainda vicejam numa sociedade que acredita evoluir numa perspectiva unilateral e fechada a novos olhares e dimensões. Enquanto a preocupação com o ser humano não for adotada como parâmetro de referência nas abordagens educacionais, sociais, logo culturais, estaremos nos afastando sensivelmente da atmosfera regida por princípios e valores verdadeiramente humanos e universais. A lógica do sistema tende a nos reduzir a meros consumidores de informações, cabendo a cada um a responsabilidade individual pelo sucesso ou malogro de suas escolhas, esforços e empreendimentos. Numa sociedade essencialmente marcada por abismos econômicos insuperáveis, as diferenças e ausência de oportunidades tendem a realçar a distância que nos separa e nos encerra em universos opostos e aparentemente diferentes: entre a abundância e a escassez existe o caminho daquilo que é necessário. A nossa insana sede de sucesso reproduz os ecos de um ego sensível e doente que repreende tudo aquilo voltado para o coletivo e para o bem estar social do ambiente. Enxergar o outro como extensão de nós mesmos é um desafio diário que exige esforço, prática e principalmente persistência, pois é mais fácil (con) viver numa zona de conforto permeada por uma fria indiferença egocêntrica e disfarçada com ares de respeito ao jeito de (re) agir do outro. A vida é repleta de aparentes arbitrariedades e este típico comportamento resulta no coroamento do estilo de vida capitalista regido pelo individualismo e egoísmo predominante.

 
para aqueles
que estão
perdidos

prisioneiros
de papéis

entre extensão
de zeros,

cifras, títulos, bordéis

cálice de vinhos,
whisky e canapés

na morbidez da vida,
se dizem coronéis

eu vim beijar os pés
resgatar os fiéis

para aqueles
que gostam
de ostentar

a nobreza
se oculta
na arte
de amar

ouvir e escutar,
servir e auxiliar
nada como ajudar

neste mundo habitado
por seres doentes

todos somos loucos
poucos estão no presente

vivência imanente
caminham iludidos
quantos estão perdidos?

muitos distraídos
alguns nem se ligam

viajam corrompidos
quiçá embriagados

já foram tolhidos
recolhidos no cenário

bem vindo ao teatro
perfil mercenário

dimensão invisível
espiritual conflito

nos campos de guerra
bem vindo ao paraíso
fim do Planeta Terra

ignore o canto
rejeite o convite
a sereia global
do seu mote
não desiste
ainda insiste
em cantar

 
A filosofia, num primeiro momento, nasce da necessidade do homem explicar a origem das coisas e do seres, sendo que os primeiros filósofos, os pré-socráticos, também considerados físicos e matemáticos, optaram por realizar esta busca fora deles mesmos, ou seja, acreditava-se erroneamente que a resposta estaria fora da dimensão ontológica, na natureza mesmo. Mesmo discorrendo sobre prováveis princípios e acrescentando inclusive o éter como elemento primordial, assim como a terra, água, fogo e ar, os filósofos pré-socráticos não ultrapassaram os limites impostos pela observação externa dos fatos, por mais que pudessem angariar determinados conhecimentos, inclusive a existência do átomo, por exemplo, foram incapazes de perceber em si mesmo a possibilidade de empreender uma viagem interna a origem do ser. Sócrates é considerado um divisor de águas justamente por este desdobramento, o conhece-te a ti mesmo, faz com que os "olhares" antes voltado para fora, se voltem para dentro, na busca por respostas. Inicialmente indagando conceitos, Sócrates nos leva a um estado de perplexa ignorância, como condição fundamental de todo filosofar, pois aquele ao tomar consciência de que nada sabe, dá um passo em direção ao verdadeiro conhecimento, afinal o que é o real? Onde reside a verdade? O que é e não pode deixar de ser? O problema da realidade das coisas já tinha sido colocado por Heráclito que acreditava que tudo se resume no devir, no vir a ser, a ideia do ser como permanente processo nos leva a refletir pela perspectiva do movimento, do vir a ser das coisas e dos seres, um oleiro é capaz de transformar o barro em um objeto útil ou decorativo, enquanto Parmênides acredita existir algo de absoluto e essencial em todas os seres e coisas, o que levou a dizer que a verdade é aquilo que é que não pode deixar de ser, na tentativa de conciliar estas duas teorias, Platão delegou a teoria heraclitiana do vir a ser ao mundo sensível, perceptível pelos sentidos, e a teoria de Parmênides ao mundo inteligível, das ideias, perceptível pela alma. O mundo inteligível é o mundo real, das coisas que são e não podem deixar de ser. É interessante notar que desde dos gregos, ou seja, desde do nascimento da filosofia, a mesma está vinculada ao sentido e reestruturação do real, afinal, o que é a realidade. Para Platão a filosofia nasce do espanto, para Aristóteles, da admiração, para Descartes, da dúvida e para Kant de um certo desconforto moral, na verdade, podemos perceber nuances de um mesmo movimento, pois o distanciamento das coisas e dos seres só é possível mediante uma postura de espanto e de contemplação desinteressa, a busca pelo sentido da existência nos leva de encontro a nossa impotência perante o mundo das contingências e das necessidades. Deste distanciamento nasce uma postura reflexiva, de não identificação com o ser das coisas, pois a identificação e adequação do ser aos objetos nada mais é do que ausência de reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida. O seres humanos podem ser medidos segundo sua capacidade de se espantarem perante o simples ato de existir, pois a dimensão interior se abre perante alguns pressupostos, entre eles o da dúvida e desconfiança perante aquilo que convencionou-se chamar de realidade. A realidade das coisas e dos seres se apresenta quando somos capazes de silenciar a nossa própria voz, pois passamos a ouvir a "voz" de todas as essências. O distanciamento e o estranhamento inicial que nos levam a admissão de nossa impotência e fraqueza, faz com que busquemos novos elementos para reconstruir novas reflexões, pois a verdade não se apresenta pronta, única e indubitável, ao contrário, parece desvelar-se e apresentar novas problematizações a partir do momento em que nos permitimos ir ao seu encontro, não existe uma história fixa e absoluta do ser, o ser do ente é abstrato, é impossível captar o outro em sua inteireza, pois desconhecemos aspectos essenciais de nós mesmos, só posso me apresentar e me reconhecer enquanto aqui agora imanente e eternizado pela minha própria finitude e imperfeição, a limitação imposta pelos sentidos deve ser superada pela abertura consciente de uma nova percepção, transcender estes limites nos leva a uma nova compreensão e sentido das coisas, a autenticidade passa a ser uma busca continua e permanente, pois somos únicos. A criatividade e o grau de originalidade que por muitos é considerado um mistério, para outros se resume numa pura e simples imitação (Aristóteles), criar é reconstruir o que já foi construído e apresenta-lo de uma nova maneira, é como se revestíssemos a mesma ideia mas com roupagens novas, o próprio Albert Einstein nos precaveu, se alguém quer se manter na posição de gênio nunca ouse revelar as suas fontes. É preciso muito esforço e muita coragem para se ter uma vida destinada a busca pela verdade, pois romper com os grilhões impostos pela grande maioria é desafiador, mas com certeza compensa.    

Neste últimos dias estive envolto numa nuvem de reflexões sugeridas por leituras a respeito do problema educacional brasileiro. Entre eles podemos destacar a falta de incentivo real e verdadeiro por parte das autoridades para que o cidadão se conscientize dos seus deveres e trave uma guerra pelos seus direitos. A ausência de um senso crítico, desprovido de reflexão, faz com que o povo seja cegamente guiado por Instituições (leia-se pessoas) interessadas única e exclusivamente na sua perpétua dependência e ignorância. Triste é constatar que grande parte dos meios de comunicação de massa ainda se encontram nas mãos de pessoas que um dia defenderam e apoiaram a ditadura. O Sistema Educacional Brasileiro é militarista, visto sua grade curricular, beneficiar, de forma visível e palpável, o ensino de matérias voltadas para o aspecto prático da existência. Este pragmatismo pode ser constatado na elevada carga horária empregada desde do Pré-Escolar até o Ensino Médio no ensino de Língua Portuguesa e Matemática, que ouso chamar de disciplinas primárias. As secundárias seriam as relacionadas as Ciências, como Química, Física e Biologia; terciárias: História, Geografia e Literatura. As demais disciplinas são relegadas a um plano inferior, sem estatuto e seu ensino é sempre posto em xeque, senão pelas Instituições também por grande parte dos alunos, são elas: Filosofia, Sociologia, Artes Plásticas, Artes Cênicas e Música. Esta característica tecnicista, mecânica e utilitária, voltada para os aspectos práticos e imediatos da existência nos ajuda a desvelar e compreender as principais razões e origens do comportamento do nosso povo. Não adianta apontar os erros, é preciso buscar soluções. Uma análise histórica do processo educativo em nosso país ira fazer com que este suposto mistério em torno da falta de interesse da maioria do povo brasileiro pelas disciplinas consideradas "humanas" venha a tona. É muito fácil emitir um juízo contra determinados tipos de comportamentos e condutas, difícil é empreender uma luta diária para exterminar o mal pela raiz. O aspecto artístico e cultural de uma nação não pode ser relegado a segundo plano. A exclusão e a ausência do devido cuidado na disseminação e propagação destas disciplinas minam as faculdades do ser humano, limitando o seu grau de percepção e entendimento da realidade que o cerca pois estas disciplinas facultam o desabrochar do entendimento, propiciam o desvelar continuo de novas habilidades, além de exercitar de forma espontânea a criatividade, o cultivo da reflexão e da expansão de consciência. É impossível avançar em termos civilizatórios sem o devido material humano. Nietzsche já apontava para o perigo de uma sociedade forjada por cientistas e construtores de pontes. A arte, assim como a filosofia e a sociologia são alimentos imprescindíveis na formação cultural de nossos jovens. É impossível qualquer tipo de mudança ou avanço enquanto a nossa base educacional estiver presa a este molde ultrapassado, arcaico, quiçá ditatorial, que só serve aos interesses de Instituições (Estado, Empresas e Igrejas) que visam lucrar com a mão de obra barata e com uma postura irrefletida perante a vida. As consequências são sentidas no baixo nível estético e ético exigido nos meios de comunicação de massa, seja na tv, no rádio ou na internet. A preocupação com o belo e com os princípios éticos não estão entre as prioridades daqueles que poderiam operar uma brusca mudança comportamental, ao contrário, primam por velar de forma proposital seus verdadeiros objetivos e interesses. Este o verdadeiro sentido e caráter de toda ideologia. É preciso um pouco mais de Música, Pintura e Poesia pois é assustador o acréscimo de sensibilidade promovida pela Arte. É impressionante a quebra de paradigmas proporcionada pela Filosofia pois amplia o olhar e faz o ser transitar por novas dimensões (estética, política, epistemológica, metafísica, existencialismo, fenomenológica, linguística, etc). É revolucionária a experiência catártica operada pelo Teatro pois leva de encontro a si mesmo. Enfim, é necessário uma dose generosa de "humanidade" caso quisermos elevar a consciência do "nosso povo".    

 
Escrito pelo jornalista mineiro Fernando de Morais, o livro retrata as ações políticas executadas durante as primeira décadas pós revolução. Cuba sempre será um país que incita a discussão gerando controvérsias e polêmicas, contra ou a favor, vale a pena empreender esta viagem em direção ao passado e aprender com os acertos promovidos por Fidel e sua equipe. Após um mês de permanência no país é possível perceber as contradições imanentes ao regime, como o pagamento de um maior salário aos trabalhadores responsáveis pela produção de açúcar e tabaco, a venda de produtos importados à um preço inferior para estrangeiros do que para os próprios cidadãos cubanos, a existência de um limite de compra para os produtos ofertados no supermercados e a proibição de se ter o próprio negócio. Por outro lado, quartéis se transformaram em escola fazendo com que o índice de analfabetismo caísse de 40 para 3%. A obrigatoriedade do estudo e do trabalho fizeram de Cuba um país socialmente ativo, com pequenos índices de pobreza e miséria, a reforma agrária implantada fez com que todo cubano tivesse acesso a um pedaço de terra, as casas e comércios abandonados pelos que não quiseram aderir ao regime serviu de moradia aos "companheiros" forma de tratamento utilizado pelos revolucionários. Com forte incentivo do governo, as mulheres foram emancipadas e a proibição do trabalho doméstico fez com que as mesmas pudessem ocupar, mesmo que de forma pouco ostensiva, cargos políticos e outras posições dentro do seio da sociedade. É interessante notar que o regime socialista desenvolvido em Cuba não encontra precedentes em qualquer outro lugar do mundo, apesar de ter sofrido embargo econômico promovido pelos EUA, Cuba foi auxiliado diretamente pelos soviéticos, que passaram a importar o açúcar cubano, principal produto produzido na Ilha, lentamente as reformas implementadas geraram resultados, Cuba ainda hoje, é responsável pela formação de excelentes médicos, com um organograma de atividades estabelecidos pelo governo, os jovens, além de possuírem acesso garantido ao ensino superior possuem emprego e são obrigados a desenvolverem atividades físicas, a prática de esportes ocorre de acordo com a escolha de modalidades (basquete, futebol, natação, beisebol, vôlei, etc) feita pelo aluno. Apesar de despertar suspeitas e de ser quase impossível reproduzir estes conceitos nos mesmos moldes cubanos, ainda sim, é possível afirmar que algumas atitudes produziram bons resultados. Não se trata de emitir um juízo contra ou a favor, mas simplesmente de constatar a existência de uma realidade totalmente diversa da nossa.  

 
Uma deliciosa aventura empreendida pelo fluminense de Paraty, Amy Klink, que ousou atravessar o Atlântico com um simples barco a remo. Foram necessários dois anos de estudos metódicos e o trabalho de uma equipe formada desde nutricionista à engenheiro naval. A história preenchida de curiosidades e misteriosas coincidências exercem uma doce influência no leitor, que vagarosamente é convidado a adentrar nos fascinantes segredos do mar, de uma forma inteligente e bem humorada, Amyr consegue fazer com que sua experiência se torne também um pouco nossa, a forma com que descreve os detalhes nos leva a exercitar de forma criativa a imaginação. A sua determinação e ousadia podem ser exemplificadas na escolha de sua meta: partir da Namíbia em direção ao Brasil, especificamente Salvador, com um barco a remo. Contrariando todas as estatísticas e recusando qualquer opinião contrária ao seu único propósito e desejo, mesmo sendo advertido por "marujos" experientes, diante de medidas cautelares, de estudos aprofundados da região, de suas correntes e geografia, portando conhecimentos marítimos indispensáveis para um empreendimento de tal monta, Amyr superou todos os obstáculos, principalmente os burocráticos, e partindo de uma trama forjada por fantásticas coincidências o mesmo nos transmite valiosas lições, desde do valor das coisas relativamente simples como aspectos de cunho existencial, mesmo estando distante de sua terra, longe de tudo e de todos, o mesmo não sentiu por um instante sequer o sentimento de solidão, em nenhum momento pensou que não iria conseguir, superando as adversidades, encarando os desafios com paciência e resignação, venceu a distância dia após dia, nos fornecendo uma linda lição de coragem, ousadia e determinação, um livro para ser lido com os olhos do espirito pois fala diretamente ao coração de quem lê, com certeza uma bela experiência que merece sim, ser compartilhada, boa leitura a todos.     

 
é um copo de água gelada
é uma pia com louças lavadas
é um quintal limpo, arrumado
é um banho no corpo suado
é algo simples, inusitado
é o cheiro quente e forte de café
é a manteiga derretida no pão
é o alho na panela de arroz torrado
é o bom dia do vizinho ao lado
é a janela aberta ao sol
é o convite que a vida reserva
é a roupa secando suave no varal
é o cheiro de chuva na terra
é sua canção no rádio tocada
é um poema no livro declamado
é um minuto de ócio despreocupado
é a prece realizada no mesmo horário
é um ritual de alegre sacrifício
é um sorriso aberto espontâneo
é um oficio exercido com paciência
é a disciplina transmutada em ciência
é a liberdade de criar o inesperado
é respirar o ar puro de uma floresta
é ouvir o sereno assobio dos pássaros
é consultar os deuses e os astros
é extasiar-se perante o grito de um macaco
e contemplar um crente na igreja ajoelhado
é respeitar as rugas dos mais velhos
é viver tranquilo consigo, na serenidade
é ajudar na construção de um novo mundo
é transformar os valores da sociedade
é a amizade de infância cultivada
é o elo mais forte de uma corrente
é saber dar a quem te pede
é o silêncio no intimo auscultado
é o desejo, o sabor do pecado
é ser humano na sua plenitude
é ter vontade e as vezes ser rude
é ser poeta convivendo com feras
é filosofar com os antigos numa era moderna
é deleitar-se com a mais nova canção
é distrair-se sem perder a razão
é confundir-se na imanência de ser outro
é ser processo, sempre algo vindouro
é o futuro que habita nosso presente
é o passado que a gente não ressente
é a memória no quintal estendida
é um espirito, um comportamento
é uma atitude de ousadia e contentamento
é valorizar cada gesto empregado
é respeitar o que é para ser respeitado
é não distinguir o profano do sagrado
é ser falível e aprender com os erros
é ser humilde perante a divindade
é ser humano e desejar a verdade
é sofrer no silêncio com dignidade
é esperar o nascer de uma nova humanidade

 
O livro foi escrito por dois jornalistas, Rogério Medeiros e Marcelo Netto,e descreve em detalhes as atrocidades cometidas pelo delegado capixaba Cláudio Guerra, que na época da ditadura era delegado do DOPs. Guerra foi um dos nomes mais temidos no tempos da ditadura, sua reputação inspirava temor e respeito, apesar de ter assassinado centenas de pessoas contrárias ao regime, era totalmente contra a prática de torturas. Com detalhes reveladores, o livro revela a face mais cruel e sórdida dos meios utilizados pelos militares para permanecerem no poder, desde reuniões secretas num tradicional restaurante do Rio de Janeiro, o Angu do Gomes, até o treinamento e financiamento por parte da Agência Central de Inteligência dos EUA, a CIA. O livro relata de forma cronológica acontecimentos trágicos de uma época marcada pelo medo e pela insegurança. Sua atuação se concentrava em toda região sudeste. Uma das táticas utilizadas pelos militares era o recrutamento de civis e militares para desempenharem atividades fora do seu estado de origem pois era uma das formas dos envolvidos não serem reconhecidos e agirem com mais liberdade e segurança. O livro cita nome conhecidos, do meio artístico, político e empresarial, nos deparamos com as ilustres figuras de Roberto Marinho, Brizola, Gabeira, Lucio Mauro, Boni, Maluf, Abílio Diniz. Vários atentados foram orquestrados contra a figura de Brizola por exemplo, todos sempre mal sucedidos. Gabeira foi outro a ser fortemente perseguido. Após ter voltado do exílio, era vigiado habilmente por um coronel linha dura, que não perdoara o fato de ter uma das pernas fraturadas em função de um tiro dado pelo mesmo, apesar de Gabeira negar veemente este fato. Guerra fora incumbido da missão de plantar uma bomba no avião que iria embarcar com o futuro deputado, no entanto, além de não ter identificado a presença de Gabeira o mesmo se deparou com uma cena que o fez voltar atrás: a quantidade de crianças e idosos a bordo. A bomba foi deixada no banheiro do aeroporto, fato este acobertado pela imprensa. Os relatos seguem uma sucessão de cenas dignas de um filme de terror, desde torturas, decapitação de membros, incineração de corpos, tiros a queima roupa, afogamentos e aparentes mortes acidentais. Todo um esquema montado em função de um só objetivo: a manutenção do poder e do regime na mão dos militares. Qualquer pessoa que representasse um risco e pudesse ser forte instrumento para alavancar os ideais de ordem democrática poderia se tornar num alvo que deveria ser rapidamente eliminado, sem rastros e pistas, sem direito a ser velado. A casa da morte em Petrópolis aparece como possível local de desova, assim como uma usina de cana de açúcar em Campos, que pertencia a um famoso empresário e era utilizada na incineração de corpos. A relação com os empresários e fazendeiros locais era estreita, os mesmos faziam parte de um grande esquema de tráfico de armas internacional. Na iminência de estourar uma possível rebelião a favor da reforma agrária, agentes americanos abasteciam os fazendeiros através dos militares, que utilizavam toda sua influência na compra e venda de armas. Além de terem sido fortemente treinados pela CIA os mesmos chegaram a receber a incumbência de executarem determinadas missões, entre elas a de explodir uma rádio comunista em Angola. Na época a presença maciça de cubanos fez com que o ataque se desdobrasse numa guerra sem precedentes, envolvendo todas as partes. Os militares voltaram no mesmo dia, e isto nunca veio a tona, até então. O empresário Roberto Marinho, das Organizações Globo, que sempre teve boas relações com os militares, no  final dos anos de chumbo, numa inútil tentativa de dissociar seu nome do regime, chegou a arquitetar com os mesmos um plano para que a sociedade pudesse acreditar que ele também era mais uma vitima da ditadura. O ataque em sua casa foi um plano bem bolado para que todos pudessem sair ganhando, os militares sabiam de antemão que a casa estaria vazia e a mando do senhor Roberto Marinho explodiram uma bomba, nenhum vestígio foi encontrado e ninguém foi notificado ou processado.  As reuniões entre os coronéis se dava num tradicional restaurante do Rio de Janeiro que foi recentemente reinaugurado, o Angu do Gomes, era um restaurante frequentado por políticos, militares e artistas, entre eles Boni, Lúcio Mauro, Wagner Montes e Moacir Franco, todos com ligação direta com o regime. O sequestro do empresário do grupo Pão de Açúcar, Abílio Diniz foi efetuado numa frustrada tentativa de manchar a reputação do PT, que naquela ocasião disputava um cargo a presidência, sendo a principal força oposicionista, com o candidato Luis Inácio "Lula" da Silva que viria a ser derrotado após uma descarada manipulação do debate televisivo em favor de Fernando Collor. Cláudio Guerra era apenas um civil cumprindo ordens dos seus superiores, geralmente era o responsável pelo tiro de misericórdia. Entre tantos acontecimentos, é possível entrever a atmosfera de medo e desconfiança que permeava seu universo intimo e particular, presenciou a morte de milhares, assim como o favorecimento ilícito de tantos outros, entre eles, podemos citar um grupo particular, o dos bicheiros. Após a queda do regime, teve como padrinho o famoso bicheiro carioca, Castor de Andrade, que após ter lhe revelado o funcionamento de sua engenhosa estrutura, ajudou a aplicar o mesmo procedimento no Espirito Santo, Guerra seria eternamente grato por isso, se não fosse seu encontro com Deus e sua conversão a uma religião de origem evangélica, movido por este sentimento de remissão e arrependimento, ele abre o jogo num livro surpreendente e que com certeza merece ser lido por todo aquele que de fato interesse um pouco pela história recente de seu país. Um belo convite, boa leitura a todos. 

São as crônicas nascidas de nossas experiências que nos tocam e nos levam as mais belas reflexões, pois é preciso sentir dentro de si um caos para poder parir uma estrela, já dizia um célebre filósofo explosivo e antidogmático. A origem dos dogmas reside na presença do autoritarismo e sua existência permanece somente em ambientes coercitivos, cuja marca indelével é a incondicional submissão aos valores e conceitos disseminados como verdades eternas e absolutas. Estas discussões me levam de encontro à preguiça e a indolência, nada melhor do que deitar e em absolutamente nada pensar, pois não existe nada mais importante no momento do que esta chuva que cai deliciosamente lá fora, depois de ter presenciado a queda de uma tempestade, com raios e trovões, abro a janela e me deparo com um fim de tarde ensolarado, o que fez surgir um lindo Arco Iris, que sempre consegue resgatar, de forma direta e espontânea, a minha ingênua e saudosa infância. Diante de um mundo destituído de valores e de presença, olhar dentro dos olhos constitui algo de inestimável importância e valor, os antigos reconheciam as pessoas pela forma como pegavam em sua mão e dependendo da força e da firmeza era possível medir e prever o caráter e compromisso impresso naquele aperto, registros de um tempo marcado pelo famoso fio de bigode, em que a palavra dada valia a honra e dignidade de toda uma existência, cedendo aos apelos do momento, sou impelido a este tempo, que será irremediavelmente perdido e esquecido, quiçá se tornará imemorável. As sementes plantadas em meu coração parecem brotar com esta chuva de reflexões, os grãos de uma filosofia ativa florescem no solo da mente, a poesia dissemina temas, a história sugere ciclos, os caminhos não são únicos, são distintos e nada neste mundo permanece, a tristeza contida nos lábios, a maldade persistente da língua, os fósforos riscados no quarto, o preço pago pelo suicida, a morte é extensão da vida, e os quadros serão restaurados, na inútil tentativa de resgatar a sua imanente originalidade, nomeiam presidentes, vendem-se esperanças, brincam com o destino do povo, esquecem-se de quem são filhos, aumentam as tarifas, reduzem a educação, o número de livrarias extintas em Nova York é o reflexo do mais novo modelo defendido pela cultura do capital, procuram perspectivas, apontam caminhos, sugerem especulações, nada de novo parece ser criado, alguém contempla uma nova peça de teatro, o aumento dos preços no mercado e na conta de energia, baldes espalhados no quintal evidenciam as consequências da seca, uma nova consciência ressurge no horizonte trágico, a dor novamente impulsiona o progresso, e um novo jogador contratado ainda anima as conversas descontraídas dos distraídos que ainda permanecem parados na esquina, o tempo se avizinha das horas, o mundo se aproxima do medo no elo de chaves e paredes, janelas e portas, muros e portões, alguém picha no muro a sua própria miséria, revoluções artísticas da matéria inauguram uma nova era, onde a hipocrisia e a letargia mental impera, nada de novo, nenhuma novidade, aumentei um ano em minha idade, o posicionamento dos astros reconstrói minha nova atmosfera, o homem fera novamente enjaulado, permaneço trancado, no corpo cela a alma contempla no futuro a sua liberdade, do futuro ainda hoje sinto saudade, até que me despeça mais uma vez do planeta Terra.  A busca incessante pela perfeição, pelo mínimo teor literário destilado nos versos, pelo respeito contido no mínimo de amor próprio.

Bem vindos ao ano de 2015. Poderíamos enumerar os aspectos positivos do ano que se inicia e logo em seguida fazer um formidável convite ao leitor para que se delicie e aproveite as oportunidades, porém, as profecias apocalípticas parecem estar se realizando bem diante dos nossos olhos. Apesar do espasmo coletivo com o número de ocorrências lamentáveis registradas na Petrobrás, do índice inflacionário, das sombrias previsões econômicas, das reduzidas perspectivas de crescimento e da possibilidade de testemunharmos o maior racionamento de água e energia do País, milhares de pessoas ainda preferem viver sem nenhum tipo de reflexão e aprofundamento relativo às questões existenciais. A maioria prefere optar pela adoção cega e irrefletida de valores ilusórios e imediatistas, adiando mudanças importantes em suas vidas, sobretudo em relação ao comportamento perante a própria vida, que se torna destituída de valor e de um significado maior. No passado poderíamos recorrer ao célebre ditado incorporado pelos mestres da auto ajuda que dizia de maneira incisiva que onde algumas pessoas enxergam crise outras veem oportunidades, mas diante da escassez de recursos indispensáveis a manutenção da vida é impossível não aderir ao apelo promovido pelo pânico e o desespero. Se por um lado condutas alarmistas servem para influenciar de forma decisiva o futuro de uma geração ou de simplesmente tornar mais fácil os meios de manipula-la por outro não podemos ignorar que as drásticas mudanças climáticas promovidos pelo aquecimento global tem repercutido de forma negativa na vida de grande parcela da população mundial, fazendo com que algumas atitudes e valores até então tido como absolutos passem a ser revisados e discutidos sobre uma nova ótica mundial, ou seja, de que a falta de alguns recursos naturais, inclusive os considerados renováveis, tendem a ser um fator de grande risco para a extinção deste modo de vida capitalista, que valorizou em demasia os objetos mais do que os próprios seres. A reflexão não está sendo mais direcionada para o aspecto do consumo mas sim para o da produção, ou seja, não é simplesmente saber e afirmar que precisamos reduzir o consumo das coisas e sim a produção de artefatos e artigos inúteis, desnecessários, é hora de repensarmos, em caráter emergencial, a real necessidade de certos produtos e utensílios. O simples hábito de não comer carne pode ser um dos maiores atos em favor da manutenção e da preservação de nascentes por exemplo, a quantidade de água utilizada no cultivo da soja e na alimentação de aves, bovinos e suínos ultrapassa em números a utilizada por nós, humanos. Deveríamos repensar a produção de novas tecnologias e passar a valorizar a própria vida em si, valores como o amor e a amizade, temas corriqueiros inscritos nas mentes de ingênuos idealistas pode ser apontado como caminhos a serem seguidos por todos aqueles que acreditam em algo bem maior do que suas próprias crenças e vontades.

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GINO RIBAS MENEGHITTI

Escritor, Filósofo, Poeta, Ensaísta, Político, Rapper, Dependente Químico, Militante Ativo do PC do B, Técnico Administrativo do CEFET, Membro de Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e Grupo Levanta de Novo. Ministra Palestras Gratuitas sobre Dependência Química e assuntos relacionados a Política, Educação e Cultura em Geral. Áreas de Interesse: Filosofia, Literatura, Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Cinema, Música, Biografias, Dependência Química, Estudo das Artes e Religiões.

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Frases de Albert Einstein

A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

A imaginação é mais importante que o conhecimento.

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

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