latentes viagens

Este espaço é um experimento aberto, amplo, intuitivo e original. Liberto das amarras acadêmicas, sistêmicas e conceituais, sua atmosfera é rarefeita de ideias e ideais. Sua matéria prima é a vida, com seus problemas, desafios e dilemas. Toda angústia relacionada ao existir encontra aqui seu eco e referencial. BOA VIAGEM!

Quando me deparo com qualquer artigo, livro ou ensaio sobre filosofia, sou remetido aos porões da academia, em que me via sendo diariamente tolhido, reprimido e torturado por professores distantes do verdadeiro conceito de educação e aprendizado. Longe das muralhas acadêmicas respirei ares mais elevados, tanto no âmbito artístico, científico e filosófico quanto no sentido cultural, social e histórico. A academia pode ser comparada a um restaurante que serve comida fria, vencida e mal preparada. Sua preocupação não está em servir um alimento puro e saudável, ao contrário, a prerrogativa de sua existência se deve ao ato de contaminá-la. Por quantas vezes não me alimentei dos vômitos e restos deixados por outras pessoas. As interpretações emitidas pelos professores devem ser aceitas, engolidas e mastigadas sem a mínima dose de crítica, critério e avaliação. Por outro lado, quem ousa desafiar seus conceitos, ideias e abstrações, estará condenado a viver enclausurado e isolado num vil deserto solitário, impossibilitado de se  aproximar de seu círculo íntimo, mítico e sagrado. Todos os pensadores autônomos, com perfil independente, que apresentem o menor indício de originalidade, devem ser rechaçados, excluídos e afastados, por terem ousado, pensar e criar por si mesmos, seus próprios sistemas, teoremas e postulados. No nobre círculo acadêmico não existe espaço para almas rebeldes, criativas e apaixonadas. A aquisição de títulos, currículos e rótulos depende, necessariamente, da disposição ativa do neófito em se submeter de forma passiva, omissa e covarde aos ditames emitidos pelos profissionais do ensino e do saber. Os alunos que seguirem os passos e as diretrizes impostas por seu orientador sem hesitar serão os eleitos e os escolhidos para habitarem o bem aventurado mundo acadêmico. Aos alunos que optarem por trilhar um caminho próprio resta contar com suas próprias pernas, leituras e interpretações. Por ter ousado me aproximar mais dos filósofos do que dos doutores, mestres e professores, me tornei um aluno perdido e desorientado. Incapaz de seguir os passos e caminhos por outro já trilhado tornei-me discípulo da vida. Fiel ao meu instinto e curiosidade, perambulei a esmo, por vastos corredores, que ora estavam em trevas, ora pujantemente iluminados, por escritores sombrios, esquecidos e apagados ou por figuras ilustres, reconhecidas e admiradas. As bibliotecas se tornaram minha escola e os livros meus mestres. Por vezes seguia lendo e estudando de forma metódica, analítica e organizada, por outras devorava de forma aleatória, sintética e precipitada dezenas de obras desconexas, mas todas muito bem escritas e elaboradas. Meus devaneios oníricos e literários foram consumidos, preenchidos e habitados por pessoas de vários continentes, países e estados. Não me contive ao conhecer os filósofos pré socráticos. Animadamente estendi a mão ao convite de Parmênides, Empédocles e Heráclito, Anaxágoras, Anaxímenes e Anaximandro, Tales, Pitágoras e Demócrito. Conversei por horas a fio com Sócrates, Platão e Aristóteles. No mundo das ideias encontrei várias respostas aos questionamentos de ordem metafísica e de cunho existencial. Com os filósofos pós aristotélicos descobri o valor da amizade e da postura ascética, cética, hedonista e pirrônica. Da necessidade de buscarmos o prazer com equilíbrio e moderação. Sentei-me alegremente no jardim de Epicuro e ouvi Lucrécio declamando versos em prosa, ouvi com prazer as recomendações estóicas de Sêneca e Marco Aurélio. Convivi com os filósofos Neo Platônicos, em especial Plotino, que me convidou a contemplação do Uno indizível, indivisível e inefável. Estive na França do século XVI e XVII, conversando animadamente, por horas a fio, com Montaigne, Descartes e Pascal. Na Inglaterra fui a apresentado ao empirismo inglês promovido e defendido secularmente por Francis Bacon, John Locke e David Hume. Conheci Espinoza, Leibniz e Newton. Travei intermináveis diálogos com Rousseau, Voltaire e Kant. No século XIX, enquanto vivíamos as fases tardias do romantismo, com Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e Castro Alves o velho mundo era banhado por  um conjunto de correntes políticas, econômicas, filosóficas, científicas e sociais. Fiquei hipnotizado pela escrita límpida, clara e bela, sobretudo prazerosa, de Schopenhauer e Nietzsche que podem ser considerados, por uma questão de estilo, gosto e influência, os percursores da psicanálise freudiana e das futuras pesquisas empreendidas por Carl Gustav Jung. Marx, Engels e Lenin me inspiraram revoluções no plano político, econômico e social. Bakunin, Tolstoi e Proudhon me ensinaram a questionar o Estado e a visualizar com mais clareza suas imanentes contradições. Me assustei com o liberalismo econômico proposto por Adam Smith, Thomas Malthus e David Ricardo. Presenciei o nascimento do existencialismo na Dinamarca com Kierkegaard, da fenomenologia com Bertrand Hurssel, Max Scheler, Heidegger, Merleau Ponty e Sartre e do positivismo com Auguste Comte. Depois de ter transitado pelo círculo de Viena, me aventurei pelos campos da lógica, da filosofia da mente e da matemática na Escola de Cambridge com Russel e Wittigenstein. Na escola de Frankfurt, dei as mãos à Horkheimer, Adorno, Marcuse e Erich Fromm que me ensinaram a desconfiar tanto do capitalismo americano quanto do socialismo soviético, propondo a construção de um caminho social alternativo. Na contracultura me perdi com os escritos lisérgicos e libertários da geração beat muito bem representa por Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Tive um surto de reflexões ao me deparar com Aldous Huxley e as Portas da Percepção assim como me extasiei com Carlos Castanedã e os índios mexicanos na sua busca pela verdade e o auto conhecimento. Foucault me trouxe, mais uma vez, ao chão da realidade através da sua obsessão por prisões, violência e loucura. Hoje trafego por ruas claras e escuras mas sempre munido do único propósito de aprender, digerir e ruminar, para poder absorver, expelir e repassar, não o conteúdo, e sim, a fonte.


Por sua efervescência cultural, o livro Solar da Fossa, de Toninho Vaz, merece ser lido e relido várias vezes. Nos serve como remédio, antídoto e precaução contra todo tipo de pensamento pequeno, medíocre e tacanho. Alimenta nossa crença e esperança numa possível catarse artística e cultural da humanidade. Sua atmosfera preenchida por compositores, músicos, artistas, jornalistas, cineastas, filósofos e poetas nos transporta para um universo quase onírico, romântico e idealizado. Construído no final do século XVIII, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, o antigo casarão, constituído de 85 quartos foi transformado, em 1965, numa pensão que fora zelosamente administrado por Dona Jurema. Entre seus ilustres moradores figuraram os nomes de Caetano Veloso, Gal Costa, Paulinho da Viola, Zé Keti, Ruy Castro, Maria Gladys, Betty Faria, Darlene Glória, etc. Frequentado pela elite intelectual da época, o solar seria visto como um celeiro de gênios cuja produção reverberava diretamente no cenário artístico nacional. No auge dos festivais, serviu como lugar de inspiração e criação de diversas músicas e sucessos. Condecorado como reduto da contracultura o Solar serviu de refúgio e abrigo a muitos militantes de esquerda e do partido comunista. Cristovam Buarque chegou a se esconder por lá algum tempo. Durante o ápice da ditadura, em 68, foi por diversas vezes, invadido e revistado, por agentes do Dops, que chegaram a conduzir alguns moradores aos porões do Doi Codi. O livro narra trechos de um tempo marcado pelo medo, o pânico e o silêncio, mas o viés artístico e cultural se sobrepõe de forma contundente. É impossível não se extasiar perante os relatos de quem testemunhou com seus próprios olhos a improvável reunião de um seleto grupo que chamava a atenção não só pelas roupas mas principalmente pela genialidade e talento. O livro é um convite aos corredores da casa mais bem frequentada do Brasil nos anos sessenta. Entre e Confira!



Ninguém em sã consciência ousaria negar a existência de grupos mafiosos que controlam e conduzem atividades lícitas e ilícitas pelo mundo, porém, poucas pessoas possuem noção da dimensão e da real extensão de seus escusos negócios e de sua ampla esfera de atuação e influência, sobretudo política e econômica. As principais organizações criminosas do mundo sempre tiveram grande interesse em se aproximar e se associarem, de forma discreta - mas nem por isso, menos ativa e atuante - ao principais líderes políticos do globo. A troca de favores, regida por um jogo de interesses, fez com que diversos líderes políticos concedessem, de forma vil, leviana e covarde, privilégios de toda sorte a meia dúzia de afortunados larápios da res pública. Vários exemplos podem ser colhidos e analisados folheando os capítulos da história mundial. Vale destacar a supremacia das máfias russa, italiana e japonesa, juntamente com os principais cartéis de droga da Colômbia e do México. Volumosas quantias de dinheiro são adquiridas mediante o tráfico de armas, drogas e o contrabando de produtos falsificados, sendo os mais comuns e procurados, bebidas, cigarros e eletrônicos. Porém, o crime como as organizações não são mais os mesmos, e a própria máfia, durante muitos anos, demonstrou sua vocação e perspicácia para se introduzir no seio da sociedade com uma fachada limpa e honesta. Os negócios se diversificaram e vão desde a criação de famosas redes de hotéis, restaurantes e alimentos até os domínios da especulação imobiliária. Os tentáculos da máfia não possuem limites e seus territórios são sempre ampliados seguindo a mesma lógica e perspectiva de uma empresa multinacional que busca por demanda e mercado. Quem quiser, de fato, compreender o mundo, tal como ele é, terá que perpassar o olhar sob a dinâmica teia do crime e das suas promíscuas relações com as altas esferas do poder, caso contrário, será incapaz de perceber, de forma clara, nítida e transparente a arquitetura política e econômica que nos impede de visualizar o topo da pirâmide e de nossa cadeia social.                           

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GINO RIBAS MENEGHITTI

Escritor, Filósofo, Poeta, Ensaísta, Político, Rapper, Dependente Químico, Militante Ativo do PC do B, Técnico Administrativo do CEFET, Membro de Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e Grupo Levanta de Novo. Ministra Palestras Gratuitas sobre Dependência Química e assuntos relacionados a Política, Educação e Cultura em Geral. Áreas de Interesse: Filosofia, Literatura, Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Cinema, Música, Biografias, Dependência Química, Estudo das Artes e Religiões.

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Frases de Albert Einstein

A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

A imaginação é mais importante que o conhecimento.

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

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