Desconheço
por completo a obra do poeta, mas acompanhava assiduamente sua coluna
na Folha. Apesar de ter adotado um discurso mais polido e reservado
quanto aos ideais de esquerda, ardorosamente defendidos durante a
ditadura militar, sua última publicação em vida prima por um caloroso
convite a distribuição de renda e por uma cuidadosa atenção com os mais
pobres. O título por si só já nos diz muita coisa "Para que alguém
necessita ter a sua disposição milhões de dólares?" Assumindo, na
coluna, a identidade poética proposta por João Cabral de Melo Neto, cuja
poesia retratava as contradições e conflitos vividos pelo sofrido povo
nordestino, Gullar primava por realçar e expor de maneira clara,
objetiva e contundente as disparidades sociais presentes em nosso país.
Não era apenas o poeta, era sobretudo o cidadão, extremamente consciente
e politizado que sobressaia em seus textos, crônicas e ensaios. Não
foram poucas as críticas dirigidas aos principais dirigentes e
representantes do partido dos trabalhadores mas também não poupou,
quando necessário, a ala mais rica e conservadora. Para quem estava
habituado a ouvir e ler Gullar sob o viés comunista, socialista e
marxista, era muito difícil, quiçá impossível, pensar na sua suposta
"endireitada". Porém, aos olhos mais atentos, que conseguem enxergar nas
entrelinhas, suas preocupações e pontos de vista permaneciam os
mesmos, ao menos nos aspectos ditos essenciais. Homem atualíssimo que
viveu e respirou até o último momento os problemas e os desafios de seu
tempo, com lucidez e inteligência invejáveis. Sem se render de forma
insensata, pueril e leviana ao cegos discursos ideológicos partidários,
conseguiu avaliar e analisar cada situação sob uma perspectiva ímpar,
com o devido distanciamento, cautela e cuidado. Quem se dispor a lê-lo
atentamente, com certeza irá se deparar com a impossibilidade de reduzir
sua produção e posição, no sentido político e jornalístico, a um único
viés e ótica. Que Deus Abençoe Ferreira Gullar!
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