Latentes Viagens

Este espaço é um experimento aberto, amplo, intuitivo e original. Liberto das amarras acadêmicas, sistêmicas e conceituais, sua atmosfera é rarefeita de ideias e ideais. Sua matéria prima é a vida, com seus problemas, desafios e dilemas. Toda angústia relacionada ao existir encontra aqui seu eco e referencial. BOA VIAGEM!

 Para quem está de fora, não passa de um conjunto amorfo e indistinto de mendigos e maltrapilhos, doentes e viciados, reunidos no único intuito de usar e abusar, de forma consciente e coletiva, de uma substância psicoativa: o crack. Ledo engano. A cracolândia, assim como a drogadição, além de revelar o drama de milhares de pessoas, expõe em plena luz do dia, a céu aberto, as feridas e mazelas de uma sociedade doente e carente, tanto de valores como de afetos. 

Os usuários enfileirados acendem seu cachimbo e, com ele, a esperança de encontrarem um novo mundo, uma nova ordem, um novo dia. Diante dos holofotes, os políticos juram estar preocupados com o bem estar físico e mental dos usuários. Garantem que irão fazer distinção entre usuários e traficantes, e que os dependentes irão receber tratamento digno e humano.

As imagens revelam o contrário.  O Estado não interveio com médicos, enfermeiros e terapeutas, e os veículos utilizados não foram ambulâncias. O que se viu foi a ação de uma polícia truculenta, violenta e despreparada. Sob uma chuva de balas de borracha e bombas de efeito moral, o grande aglomerado de farrapos humanos foi duramente reprimido e dispersado. Entre cassetetes, coturnos e escudos, os usuários evadiam-se espavoridos, abandonando seus parcos pertences e, mais uma vez, deixando para trás o essencial:  sua própria humanidade. 

O problema é complexo e de difícil solução. Seria muita ingenuidade pensar que somente amor e boa vontade seriam suficientes para acabar com o "fluxo" e convencer os usuários a abandonar as ruas e ter outra vida. A internação compulsória aparece como medida urgente, extrema e realmente necessária. É uma bela tentativa de se fazer algo por alguém que se mostra incapaz de fazer por si mesmo. Apesar de muitos negarem e não aceitarem o tratamento, vários querem e pensam em parar, porém poucos de fato conseguem.

Para quem atingiu o fundo de poço nestas condições é realmente muito difícil visualizar a luz no fim do túnel. Abandonaram e foram abandonados, primeiro por si mesmos, depois pela família e pela sociedade. A pior perda ocasionada pelo crack é a das escolhas. O indivíduo perde a capacidade de decisão, de ir ou não por aquele caminho e direção. Para quem nunca vivenciou na pele o drama da dependência pode parecer difícil ou até mesmo impossível aceitar e concordar com este tipo de afirmação, mas posso garantir: é o que acontece.   
 
É a parte doente mais visível da sociedade. É a ala dos loucos e desvalidos, dos excluídos e marginalizados, que com suas próprias mãos cavaram sua ruína e seu poço. São sim, responsáveis pela escuridão em que hoje se encontram, mas nestes casos de extremo desacerto e penúria, qualquer juízo emitido com o único propósito de julgar e condenar, em nada ajuda, apenas rotula e segrega.

Assim como a recuperação não acontece de um dia para o outro, seria muita ignorância, para não dizer tolice e bobagem, acreditar que o fim da cracolândia se desse de forma rápida e eficaz. O imediatismo que move as massas ainda irá nos levar de encontro as mais ridículas e bizarras ações. Curioso notar que este comportamento é diariamente alimentado por muitos políticos e jornalistas, que sobrevivem à custa da desgraça e sofrimento alheio.

O ideal seria fazer um levantamento de todas as pessoas envolvidas e ligadas diretamente a esta realidade. Uma coisa seria contar com a ajuda e auxílio da polícia militar; outra, fazer da mesma, o pivô do processo de “limpeza”. Além da discussão da legalização ou não das drogas, uma coisa é certa: passamos da hora de descriminalizá-la. Enquanto a cracolândia for vista e tratada como assunto de polícia, infelizmente nada será feito ou realizado em benefício do usuário.

Apesar das dificuldades e empecilhos encontrados, como preconceito e desinformação, é necessário aprofundarmos nosso olhar para enxergarmos um aglomerado de pessoas doentes e necessitadas de apoio e atenção. Reféns de uma vida insana e disfuncional, ninguém se encontra ali por que quer e gosta, além dos traficantes, é claro, que lucram com o vício e desespero de milhares. 

Verdade seja dita: o problema é amplo, e vai além da oferta ou não do tratamento e da aceitação ou não do usuário. Muitos não tem nada além da roupa do corpo, um chinelo e cobertor. Não quero pintar um quadro com as trágicas cores do vitimismo e da auto piedade, mas recomeçar do zero é um grande desafio. 

Para quem não perdeu as referências familiares, é difícil, mas para quem não tem com quem contar, é quase impossível. Como convencer a pessoa a interromper o uso se o seu retorno à rua, na miséria, é inevitável? Acreditamos mesmo na hipótese dos mendigos limpos e saudáveis, desejando ardentemente viver nestas condições?  Querer é poder, desde que o morador de rua, o viciado e o excluído, não seja eu, nem você.

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GINO RIBAS MENEGHITTI

Admiro todas as pessoas que ousam pensar por si mesmas.

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O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

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Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

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