latentes viagens

Este espaço é um experimento aberto, amplo, intuitivo e original. Liberto das amarras acadêmicas, sistêmicas e conceituais, sua atmosfera é rarefeita de ideias e ideais. Sua matéria prima é a vida, com seus problemas, desafios e dilemas. Toda angústia relacionada ao existir encontra aqui seu eco e referencial. BOA VIAGEM!

 
 
 
 
Meu nome é Gino Ribas Meneghitti, sou mais um adicto em recuperação Limpo Só Por Hoje, Graças ao Poder Superior, a Irmandade de Narcóticos Anônimos, Alcoólicos Anônimos, Grupo Levanta de Novo, Comunidade Terapêutica Renascer, ao apoio dos meus familiares, dos meus companheiros de sala e claro um pouco da minha boa vontade. Estou aqui, aproveitando este espaço, criado por mim mesmo no passado no intuito de esboçar um pouco das minhas idéias bizarras e insanidades, hoje gostaria de utilizá-lo para partilhar um pouco da minha experiência enquanto adicto em recuperação. Sou brasileiro nato, mineiro por  gosto e vocação pois não acredito em acasos e nesta idéia de destino, ironicamente orgulhoso de ser um terceiro mundista e de conviver em meio aos reflexos do luxo e da mais sórdida miséria. Nasci em Leopoldina, uma cidade do interior de Minas com pouco mais de 50.000 habitantes, fui criado em um bairro periférico chamado Cohab Velha, sinto muito orgulho de seus quarteirões e me lembro saudoso de meus tempos de infância, ainda guardo viva a nítida lembrança do límpido céu azul dos meus tempos de criança. Nasci numa família marcada pelo hábito de fazer uso do álcool em suas reuniões e comemorações, sempre era um dos primeiros a implorar pela espuminha, aquele gesto puro e ingênuo era apreciado com sorrisos pelos adultos, com doze anos já era um consumidor eventual, e todos os finais de semana gostava de bebericar destilados, tipo Martini, com quinze anos fumei meu primeiro baseado e tive a maior e melhor experiência de minha vida até então, foi amor a primeira vista, a sensação foi indescritível, acho que nunca tinha sido invadido por um acesso de riso tão intenso e tão avassalador, achei aquilo realmente o maior barato, fiquei fascinado pelos encantos sedutores da erva, com dezoito aspirei a primeira carreira, confesso que não senti o mesmo entusiasmo que tinha tido com a maconha, não exerceu nenhuma influência perniciosa pelo menos no início, aos dezenove passei no vestibular da ufop e comecei a cursar filosofia, foi um tempo de muitas experiências e descobertas, descortinei um horizonte de possibilidades e atrelei o uso de substâncias com a possível expansão da consciência, acreditava piamente de que era possível chegar a um tipo de conhecimento dito transcendental através do uso consciente de determinadas substâncias, entre elas o chá de cogumelo e a sua fórmula sintetizada no lsd. Não me aprofundando neste aspecto, seria muita ingenuidade não aceitar o fato de que sim é possível abarcar a realidade com outros olhos e admitir a existência de outras perspectivas bem mais atraentes e superiores do que o mero materialismo, a subjetividade transbordante de idéias e ideais, minha intrínseca necessidade de me aproximar da verdade a todo custo me trouxe sérios problemas mentais, físicos, espirituais e sociais. Hoje tenho trinta e um anos e seria irrisório dizer que é impossível retratar todas as minhas insanidades num texto escrito única e exclusivamente no intuito de alertar e de conscientizar as pessoas sobre a doença da adicção, mas posso assegurar que meus últimos dias de uso não se pareciam em nada com os primeiros dias da lua de mel, era o fim dos bons tempos, confesso que utilizei todas as substâncias ilícitas disponíveis em nosso país, de grama em grama, de bar em bar, fui cavando meu fundo de poço, mergulhei num estado de dor e desespero, experimentei a solidão e o isolamento, fui reduzido ao nível animal, perdi a capacidade de amar e de ser amado, não possuía sensibilidade e forças para poder continuar vivendo daquela maneira, somente ao me deparar com minha total degradação física e moral fui capaz de vencer o meu orgulho e pedir ajuda, me colocando impotente perante a minha dependência química, hoje reconheço que sou portador de uma doença incurável, progressiva e de determinação fatal: a adicção (escravo de.) Ela não possui cura e seu diagnóstico é de difícil detecção visto que somente o próprio portador pode admitir que o é. Eu vivia para usar e usava para viver, uma dose para mim é muito e mil não bastam, não possuo a capacidade de controlar o uso uma vez que eu tenha começado, não conseguia pensar em nada além na possibilidade e meios de usar mais, cheguei ao total egocentrismo, pensando somente na satisfação de meu prazer egoísta e imediatista, enfim eu fracassei enquanto usuário de drogas. Por muito tempo menti para mim mesmo, não queria aceitar a idéia de que era portador de um distúrbio mental, de que meu comportamento era totalmente compulsivo e obsessivo, acima de tudo destrutivo, tentei racionalizar, justificar e minimizar o uso, substituía uma droga pela outra, mas nada adiantava, o resultado era sempre o mesmo: dor e desespero. Até que decidi realmente me tratar e encontrei o modelo dos doze passos de Narcóticos Anônimos dentro de uma Clínica de Reabilitação. Eu sinceramente acreditava que meu maior problema era o uso de drogas porém ao iniciar o tratamento pude perceber de que o uso era apenas a cereja do bolo, como bem gostam de frisar os membros mais antigos de NA, eu teria que trabalhar a droga do meu comportamento, os meus defeitos de caráter, as minhas desonestidades. Foi preciso muita mente aberta para aceitar e assimilar novas crenças e idéias; boa vontade para colocar em prática os princípios aprendidos; principalmente honestidade para falar de mim mesmo sem restrição, tive que me despir de todo orgulho e de toda prepotência, foi e ainda está sendo um processo de total desinflação de meu presunçoso ego. Eu sinceramente acreditava que sabia alguma coisa ao meu respeito, estava totalmente enganado eu não sabia nada de mim e ao fazer uso abusivo de drogas evitava entrar em contacto com os meus reais sentimentos, a perda de contacto com minhas emoções me tornou uma pessoa imatura emocionalmente que não sabia lidar com a vida como ela é, meu baixo nível de tolerância ao stress e o meu comportamento infantil de querer fazer tudo do meu jeito, que as coisas aconteçam no meu tempo, de aceitar e pedir ajuda foram duros golpes na minha auto suficiência, hoje peço opinião sobre decisões importantes que devo tomar para pessoas significativas em minha vida e não me envergonho por isso, eu preciso sempre estar protegido de mim mesmo, sou meu pior inimigo, minha mente clama pelo fracasso, ainda sinto medo do desconhecido, não sei lidar com o sucesso, mas partilhando com outros adictos e expondo de forma honesta minhas mazelas e minhas limitações, além de estar me auto conhecendo ajudo de forma indireta pessoas que assim como eu sofrem da mesma doença. O sistema de identificação do comportamento gera um sentimento de respeito e empatia pois me reconheço no outro, a atmosfera da sala propícia a recuperação e ao me deparar com minha realidade fui obrigado além de reconhecer a minha impotência, de que precisa da ajuda de um Poder bem Maior do que Eu para poder me ajudar, vim acreditar que Deus poderia devolver-me a sanidade e decidi entregar minha vida e vontade aos seus cuidados, da forma que eu o compreendo, foi me sugerido de que ele fosse extremamente amoroso, zeloso e cuidadoso, e que tivesse fé pois Ele seria capaz de fazer aquilo que eu não sou capaz de fazer por mim mesmo, só eu posso mas não consigo, hoje necessito da ajuda do outro. Estudos indicam que somente 3% das pessoas que entram no mundo das drogas conseguem sair e mais baixa ainda é a porcentagem das que saem sozinhas, hoje não me envergonho de depender de uma sala para sobreviver, pois sei que é minha vida que está em jogo, todos os dias renovo meus votos e vivo um dia de cada vez, o mais rápido para mim é vá com calma, todos os dias me lembro de que sou um adicto e de que preciso de ajuda, Só Por Hoje posso contar com um Poder Maior do Que Eu para poder me manter limpo e sóbrio. O que eu desejo para mim, desejo para todos, que são milhares de vinte e quatro horas...           
 

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GINO RIBAS MENEGHITTI

Escritor, Filósofo, Poeta, Ensaísta, Político, Rapper, Dependente Químico, Militante Ativo do PC do B, Técnico Administrativo do CEFET, Membro de Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e Grupo Levanta de Novo. Ministra Palestras Gratuitas sobre Dependência Química e assuntos relacionados a Política, Educação e Cultura em Geral. Áreas de Interesse: Filosofia, Literatura, Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Cinema, Música, Biografias, Dependência Química, Estudo das Artes e Religiões.

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Frases de Albert Einstein

A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

A imaginação é mais importante que o conhecimento.

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

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