não encare como fuga
distante das muralhas
1984
para quem nunca leu
não se sinta obrigado
escrevo em versos
estranha poesia
pode até criticar
mas a rima é minha
hoje estou meio assim
aberto a qualquer negócio
mas não se esqueça do preço
que cobro por cada sócio
sobreviva do ócio
nunca descarte a arte
ciência é instrumento
filosofia vaidade
para quem se debate
pertubado por dúvidas
a culpa nunca foi minha
jamais será sua
religião que divide
subtrai a verdade
se pensar por si mesmo
eleva a humanidade
Me diz quantos poetas
artistas e escritores
disseminaram sonhos
sublimaram dores
quem são seus amores
e no que acredita
dispenso seu sarcasmo
com a mais fina ironia
no mundo de idolatria
o sucesso é fracasso
cultivando empatia
um bem quase escasso
no planeta de escravos
monopólio de rendas
não espero que acorde
mas nunca se renda
um dia talvez compreenda
o porque de muitas perguntas
se não conhece o desprezo
é por que não viveu na rua
Ninguém irá silenciar
nosso gemido,
o que dirá,
o nosso grito,
resistência é o caminho!
Tudo passa num segundo
de instante e fração
aproveite bem o tempo
e saiba exercer o não
meu pedido de perdão
ao bom Deus foi enviado
creio que já foi aceito
pois me sinto aliviado
sou apenas um pedaço
mal contado desta história
hoje só sabemos partes
de nossa longa trajetória
ansiamos por vitória
concretizando vontades
só existe um critério
amor além da vaidade
se o ego é empecilho
não desperdice talento
vivendo cada segundo
aproveitando o momento
o remédio é meu tormento
meu confronto diário
enfrentando mil demônios
no silêncio do meu quarto
minhas vitórias invisíveis
por mim são comemoradas
mais jamais serão vistas
por almas despreparadas
com a mente engatilhada
municiada de ideias
vejo luz no fim do túnel
enterro da última quimera
na selva sou pantera
rondando sua escuridão
cansado de ser a presa
aprisionada na prisão
Quem diria
que um dia
o povo elegeria
o militarismo
ao invés da democracia
no país das bananas
litoral para argentinos
ofertamos belezas
vendemos o paraíso
esboçando sorriso
pro gringo desajeitado
que paga muito bem
pelo serviço prestado
já estou acostumado
a negar sua esmola
para manter minha paz
menos um pobre me amola
escola a distância
sem essa de ideologia
Paulo Freire é responsável
por toda anomalia
a esquerda é vitimista
e quer se apropriar
de nossas sagradas terras
sem ter que trabalhar
foi Deus quem criou as cercas
e nos forneceu os muros
para vivermos bem distantes
do restante do mundo
Bem vindo ao paraíso
nosso mundo de ilusão
de frente pro precipício
esperando a salvação
o pastor engana o irmão
a esposa traí o marido
o filho mata o pai
ninguém está arrependido
aqui mais um conflito
no morro é deflagrado
morreu mais um bandido
pelo assassino fardado
andando com cuidado
pra não sair do caminho
as vezes é difícil
preencher o meu vazio
no mundo virtual
tenho mais de mil amigos
mas no mundo real
as vezes me sinto sozinho
com lágrimas no rosto
devaneios de criança
as vezes me pergunto
onde mora a esperança
creio num Deus que dança
que ama dá gargalhada
mas que não se diverte
ou ri de qualquer piada
o rap é uma seita
a letra o seu milagre
revolução sonora
operando a catarse
música é o disfarce
para ocultar o ódio
vem ver nossa vitória
muito além do seu pódio
valorizando o ócio
elevo nível mental
a guerra é invisível
no plano espiritual
o reino do real
conhecido por poucos
somente para os raros
que gozam a visão dos loucos
para mim ainda é pouco
ainda quero muito mais
tipo piloto de caça
deixando o boeing pra trás
quero nadar embriagado
no oceano da realidade
desce uma dose do espírito
quem tem sede de verdade
na tempestade sou seu raio
anunciado pelo trovão
apesar do fausto barulho
não descarrego em vão
cansado de grosseria
de gente indelicada
que nasceu pra perturbar
a paz por outro instaurada
o rap é de quebrada
o beat de raiz
quem conheceu a Deus
valoriza e pede bis
Ninguém neste mundo
onde fica a sua casa
Vejo tanta informação
ao lado da ignorância
ausência de conhecimento
traz a morte da esperança
desfile de hipocrisia
selo monocromático
a marca da burguesia
ignoram o arco-íris
seu signo universal
temor da diversidade
seu instinto natural
qual será sua defesa
argumentos autoritários
redução de direitos
mantém o povo escravo
religião é instrumento
de dominação em massa
catequizaram o rebanho
dizimaram sua raça
que nem pombo na praça
por outro sendo alimentado
se contentam com o pouco
que lhes é arremessado
num súbito lampejo
um insight de lucidez
ao invés de dizer sim
optasse pelo talvez
defendem a violência
armamento pesado
o povo dividido
o país saqueado
na fronteira mapeado
PCC é mão de obra
dos chefes no senado
o exército protege
fornece toda logística
me diz quem monitora
vigia portos e pistas
com a caneta do supremo
o careca já tá comprado
lembra do primeiro dia
por quem foi sabatinado?
o povo de olhos vendados
diz que é conspiração
lembra quando ocorreu
no Rio a intervenção?
Assassinaram os líderes
da famosa facção
prenderam o traficante
que trazia a munição
para quem estuda o crime
conhece sua estrutura
sabe como opera as máfias
como o cartel atua
como grandes famílias
até então divididas
hoje mais do que nunca
se encontram reunidas
o sonho de Escobar
no Brasil foi realizado
o casamento perfeito
entre o crime e o estado
queda do muro de Berlim
guerra eclodindo no Golfo
Maradona gol de mão
Inglaterra perdeu o jogo
pela rede sem limites
Fernando Collor de Mello
marionete da elite
Lembra em 89
Morumbi lotado
final do brasileiro
golaço do Sorato
nos morros cariocas
ao som do atabaque
a festa de terreiro
na favela vira baile
invadiram a sua praia
levaram cordão de ouro
descalço e sem camisa
loucos desceram do morro
arrastão em copacabana
ou na praia de ipanema
para quem nasceu na sul
zona norte é um dilema
veio Fernando Henrique
o rei da privataria
entregou a Rio Doce
em troca de ninharia
eu a tudo assistia
sem poder opinar
pela primeira vez
obrigado a votar
exerci o meu direito
questão de cidadania
depositei o meu voto
na jovem democracia
como sempre pertenci
a classe dos trabalhadores
natural ser de esquerda
me afinar com seus valores
nesta tela de atores
nossa vida é repassada
na rede televisiva
programação reprisada
pergunto pelo sentido
questiono o significado
demoro para entender
a vida e os seus recados
aqui o rap é mandado
esgrimo com minha rima
criado em minas gerais
sou fruto de Leopoldina
conheço as periferias
seus versos subliminares
se prepare pra se perder
no vale de verdes mares
muito além dos altares
do eterno conservadorismo
refém de seu julgamento
e de seu falso moralismo
perdidos no labirinto
sem entradas e saídas
valorizo o grande mestre
que por nós perdeu sua vida
era mais um suicida
atropelando gesto insano
aprendi sua receita
mens sana in corpore sano
já causei muitos danos
milhares de prejuízos
hoje faço diferente
sou exemplo pro seu filho
consegui me reerguer
do mais sórdido abismo
somente quem sofreu
valoriza o paraíso
você sabe o que é isso
perder sua identidade
não reconhecer no espelho
o reflexo da sua imagem
cansado de ver miragem
por quê tanto se exercita
vejo a exaltação de corpos
desfile de mentes vazias
ocultam informações
concentram conhecimentos
preferível adestrar
do que ter aborrecimento
na selva de cimento
visível é o contraste
de um lado os mais ricos
no outro os sem classe
no país da injustiça
do golpe declarado
o presidente escolhido
se encontra encarcerado
por todos os excluídos
sem chance nenhuma
que andam com a miséria
ou perdidos na rua
realidade nua e crua
me diz quem se importa
ninguém gosta de atender
a verdade na sua porta
milhares de crianças
jovens desempregados
ignoram sua força
o poder do mercado
sem altos salários
o povo se endivida
empréstimo bancário
violência na esquina
o banqueiro sorri
na suíte do iate
preocupado com o povo?
quero mais é que se mate
na eleição xeque mate
privatizamos quase tudo
começando pelos bancos
controlamos os seus juros
para além de seus muros
ainda existe vida
cuidado com o Senhor
pois só ele que nos blinda
o que realmente nos limita
é o medo do fracasso
preferível fugir da vida
se esconder, cruzar os braços
não acredito no acaso
nenhum tipo de injustiça
nem tudo é predestinado
escrito no livro da vida
ao me lançarem no abismo
revelaram minhas asas
o universo me deu abrigo
muito além de suas casas
sou espírito universal
além do tempo e do espaço
alguns precisam de dinheiro
outros apenas dos passos