Latentes Viagens

Este espaço é um experimento aberto, amplo, intuitivo e original. Liberto das amarras acadêmicas, sistêmicas e conceituais, sua atmosfera é rarefeita de ideias e ideais. Sua matéria prima é a vida, com seus problemas, desafios e dilemas. Toda angústia relacionada ao existir encontra aqui seu eco e referencial. BOA VIAGEM!


           Com muita alegria e satisfação aceitei o desafio de ser mais um colaborador a integrar o vitorioso time do jornal Leopoldinense. Por mais que esteja habituado a escrever e discorrer sobre diversos temas, confesso ter sido invadido por aquele "frio na barriga". Diferente daquela ansiedade e insegurança promovidas pelo medo de não agradar, essa sensação nasce do compromisso que tenho perante minha consciência e a sociedade, de expor e defender cada ideia de acordo com os ditames da ética, da beleza e da razão.
Por mais que goze da confiança conferida pelo editor de expor meus pensamentos de uma forma livre, tentarei primar, sobretudo, pelos interesses coletivos e sociais, abordando temas e assuntos que possam agregar e acrescentar algo de bom e positivo na vida dos leitores. Colocarei à disposição da sociedade, algumas informações relativas à minha experiência com a dependência química, alcoolismo e recuperação, além de abordar temas atuais sobre política, educação e cultura.
O ato de escrever, além de ser uma dádiva divina é, ao contrário do que muitos possam acreditar, resultado de um esforço contínuo e permanente. Nem mesmo os maiores gênios literários, considerados seres sensíveis e profundamente inspirados, inclusive por uma força oculta e transcendente, escapam à tarefa: todos os seus insights foram frutos de um árduo processo de leitura e reflexão. Como diria Clarice Lispector, “só se aprende a escrever, escrevendo”, pois não existe excelência sem prática e determinação. Acredito na lapidação constante de quem se propõe à hercúlea tarefa de buscar dar o melhor de si em qualquer atividade que venha a exercer, inclusive na prática da escrita.
Para além do ato de escrever, tenho grande interesse na formação de novos leitores e em exercer uma influência positiva e benéfica na vida das pessoas, principalmente em relação aos mais jovens, os quais, muitas vezes, nunca se empenharam na leitura de livros, revistas e jornais.  Poderíamos enumerar diversos benefícios advindos do hábito de ler, entre eles destaco: o enriquecimento do vocabulário, maior domínio da língua portuguesa, a melhora significativa na escrita, aumento do fluxo mental de informações, expansão da consciência, facilidade ao se expressar, maior oportunidade de emprego, conhecimento de si mesmo, acesso a outros saberes, dinamismo nas relações interpessoais, maior capacidade de abstração, aumento da concentração, desenvolvimento da criatividade e um belo exercício da imaginação. A leitura opera, de fato, transformações em nossas vidas. Além de provocar um imensurável prazer, exerce o doce fascínio de nos levar a um novo universo, e para isso só precisamos de um pouco de boa vontade e mente aberta. O que num primeiro momento pode parecer um sofrimento insuperável, num segundo se transforma em um hábito, quase um vício, que dificilmente pode ser extinto naquele que se vê como seu portador. O livro abre portas, rompe fronteiras e oferece um leque de possibilidades construtivas e inesperadas ao leitor. Pode ser a simples constatação de um fato histórico à leitura do horóscopo. Realmente é fascinante, benéfico e saudável exercitar a mente, estimulando a imaginação e a criatividade. A leitura de um bom livro alimenta a alma, amplia nosso horizonte existencial e descerra as portas da ignorância, ajudando-nos a descortinar e promover o desenvolvimento de nossas potencialidades latentes, além das já afloradas. É pena, entretanto, perceber que, com o advento dos meios de comunicação em massa, em especial a internet, estejamos perdendo o hábito e o costume de nos dirigirmos as bibliotecas e bancas.
A leitura, porém, não é um instrumento interessante aos que desejam perpetuar o seu domínio opressor, pois forma, educa e esclarece. Uma massa culta com pensamentos críticos não aceita e não deixa ser manipulada de forma cega e omissa, afinal a formação de leitores está intimamente associada à ideia da formação de um povo consciente, que reflete e questiona. Quem pensa discute, analisa e pondera, age menos por impulso e não permite ser docilmente conduzido por ideologias e maneirismos estranhos ao seu modo de sentir e pensar. De todas as armas presentes em nosso mundo, com certeza a leitura é a mais poderosa na destruição da ignorância e na extinção da miséria moral e intelectual dos povos. Toda iniciativa que não visa à libertação das consciências, aprisiona, condena e escraviza, daí a importância de se priorizar a educação e a criação de políticas públicas voltadas para a formação de novos leitores. Só assim os grilhões da ignorância serão rompidos.
Ler é crescer, ampliar e expandir nossos horizontes, é nos desenvolvermos enquanto seres pensantes e portadores das mais diversas faculdades. É um processo catártico que nos funde a uma série de universos que se desdobram num processo lento, seguro e o principal: realmente necessário. É um manancial de sabedoria e riqueza que oculta em seu interior a mais singela beleza e o verdadeiro sentido e significado que repousa em nossa essência.


A reforma do ensino médio, que deveria ser analisada, revista e discutida à exaustão foi aprovada em três horas pelo senado e sua sanção tem gerado muita polêmica. Os questionamentos perpassam desde o aumento da carga horária, redução das disciplinas obrigatórias, admissão de professores até a divisão das disciplinas por áreas de interesse.


O aumento da carga horária é um dos pontos mais positivos. Visando à presença do aluno em tempo integral, as escolas terão o prazo de cinco anos para se adequarem à nova realidade. Neste período, elas terão a obrigatoriedade de apresentar uma grade de 1000 horas anuais. A meta estipulada a longo prazo é de 1400 horas, quase o dobro da atual de 800 horas anuais.

A redução das disciplinas obrigatórias e a divisão das disciplinas por área de interesse é um dos pontos mais sérios e relevantes a serem destacados. O ensino da Língua Portuguesa e de Matemática, serão os únicos de caráter obrigatório nos três anos do ensino médio, que poderá ser cursado de acordo com áreas de interesse do aluno e da disponibilidade de cada instituição. Todas as escolas deverão ofertar pelo menos um dos cinco "itinerários formativos": linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas e formação técnica e profissional.

A escolha das disciplinas e dos conteúdos que serão ofertados poderá afetar, desde a formação dos nossos jovens, à escolha de sua profissão, e o seu possível ingresso numa universidade pública. Ora, a partir do momento que o governo brasileiro optar pela fragmentação do saber e do conhecimento, privilegiando em demasia, disciplinas com caráter pragmático e aspecto utilitarista, como no caso, Português e Matemática, a formação de nossos jovens estará voltada, quase que única e exclusivamente, para atender às demandas imediatistas impostas pelo mercado.  Esta característica tecnicista, mecânica e utilitária pode ser sentida na ausência de reflexão e senso crítico, que faz com que o povo seja cegamente guiado e conduzido por instituições interessadas na sua perpétua dependência e ignorância.
 

Triste é pensar que essa reforma poderá ser apenas mais um instrumento para fomentar a divisão de classes e dificultar o ingresso do aluno de escola pública ao ensino superior gratuito. Enquanto as escolas públicas poderão oferecer 60% das disciplinas incluídas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como proposto pela medida, a escola particular que optar por continuar oferecendo 100% de sua grade curricular focada nas disciplinas da BNCC, estará anos luz à frente na preparação de seus alunos para o vestibular, visto que o conteúdo das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), principal via de acesso às universidades públicas do país, permanecerá o mesmo.  

Outra medida, que tem provocado um certo desconforto, principalmente entre os professores e os profissionais da educação, é a possível admissão de professores com "notável saber" para lecionar no ensino técnico e profissional. Além disso, profissionais graduados, sem licenciatura, poderão lecionar no ensino médio, desde que realizem uma complementação pedagógica. Resta-nos saber como, e por quem, serão avaliados e selecionados na prática os professores de "notável saber" e, ainda, como será possível alguém dominar determinada matéria e conteúdo apenas com uma complementação pedagógica.


O aspecto científico, filosófico, histórico, artístico e cultural de uma nação não pode ser relegado a segundo plano. É impossível avançarmos em termos civilizatórios sem o devido material humano. Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, já apontava para o perigo de uma sociedade forjada somente por cientistas e construtores de pontes. As Artes, assim como a Filosofia e a Sociologia, são alimentos imprescindíveis na formação cultural de nossos jovens. É impossível qualquer tipo de mudança ou avanço enquanto a nossa base educacional estiver presa a este molde arcaico, ultrapassado, quiçá ditatorial, que só serve aos interesses de instituições (Estado, empresas e igrejas) que almejam lucrar com a mão de obra barata e com uma postura irrefletida perante a vida.

As consequências são sentidas no baixo nível estético e ético exigido nos meios de comunicação de massa, seja na televisão, rádio ou internet. A preocupação com o belo e com os princípios éticos não estão entre as prioridades daqueles que poderiam operar uma brusca mudança comportamental coletiva. Ao contrário, primam por velar de forma proposital seus verdadeiros interesses e objetivos. Este é o verdadeiro sentido e caráter de toda ideologia.

É preciso um pouco mais de Música, Pintura e Poesia, pois é assustador o acréscimo de sensibilidade promovida pela Arte. É impressionante a quebra de paradigmas proporcionada pela Filosofia, pois ela amplia o olhar e faz o ser transitar por novas dimensões. É revolucionária a experiência catártica operada pelo Teatro, pois nos leva ao encontro de nós mesmos. Enfim, é necessário uma dose generosa de "humanidade" caso quisermos elevar a consciência do "nosso povo".

Tive sérios problemas no passado em relação ao uso e abuso de drogas. Na verdade, para ser sincero, tinha sérios problemas em todos os níveis e aspectos da minha existência: físico, mental e espiritual, familiar, profissional e social, sobretudo de ordem emocional.  Era muito teimoso, orgulhoso e prepotente, além de só ouvir a mim mesmo, queria sempre fazer as coisas do meu jeito. Tinha uma grande mania de controle, um desejo absurdo de agradar todas as pessoas (fórmula perfeita do fracasso) e de rejeitar tudo que pudesse me despertar para a realidade. Não tinha mente aberta para receber e pedir ajuda, acreditava somente nas minhas ideias, crenças e opiniões. Infelizmente, tive que colecionar várias perdas para poder compreender que precisava mudar meu comportamento e adotar um novo estilo de vida. Durante vários anos, passei acreditando, que o problema do mundo era o Estado, o Governo e a Sociedade. Passei projetando minhas expectativas, desejos e frustrações nos outros, como se todos fossem responsáveis pelo meu fracasso e pela minha derrota.  Hoje, um pouco mais lúcido e sóbrio, percebo que o maior problema na minha vida sou eu mesmo. Posso ser meu maior amigo ou inimigo, depende da minha mente estar aberta ou fechada. Posso aceitar ou não o conselho ou crítica de alguém a respeito da minha vida. Depende de mim, aceitar ou mudar a realidade. Não sou responsável pela minha doença, (dependência química) mas sou responsável pela minha recuperação. Uma das coisas mais incríveis e difíceis de aceitar, foi reconhecer, de uma forma verdadeira e honesta, que nunca tive problemas com as drogas, e sim com a droga do meu comportamento. Eu não tropeço numa pedra do tamanho do elefante, estas geralmente eu vejo, de longe inclusive, caio nas pequenas. Uma toalha que deixei em cima da cama, uma louça e roupa que não lavei, um chão que não varri, uma casa que não arrumei, um café e almoço que não preparei, enfim,  são essas coisas que nos preenchem e nos fazem sentir, verdadeiros humanos: o cuidar de si. Sou portador de uma doença progressiva, incurável e de determinação fatal. Agradeço todos os dias ao Criador por ter usado e abusado do crack, pois sem ele, com certeza estaria bebendo uma cervejinha, fumando um baseadinho e cheirando uma carreirinha. Só por hoje não quero usar nunca mais. Minha vida foi roubada e lesada pelo uso abusivo de certas substâncias, comparou perdeu. Mas vou ser bem sincero. Muita das vezes, percebo que as pessoas acham, que parei de usar, por não ter condições psíquicas, por não saber usar, por exagerar na dose, por ter chegado no fundo do poço, mas o verdadeiro motivo foi o seguinte. Numa terça feira, a noite, depois de cinco meses internado, dentro de uma clínica de recuperação, um terapeuta me chamou no canto e disse o seguinte: "Gino, olha pro lado." Eu olhei e vi dezoito pessoas, assim como eu, buscando recuperação. Ele disse pra mim que somente um iria ficar limpo. No momento senti muita raiva, fiquei com ódio daquilo. Putz, cara otário, babaca, estamos aqui, internados de forma voluntária, buscando com honestidade e ele vem jogar água fria na nossa recuperação. Diante da minha reação, ele disse: "Gino meu querido, logo você, uma pessoa inteligente, formado em filosofia, professor, servidor público federal, passou por sete cidades e com certeza conhece muita gente (ele possuía minha ficha completa). Pensa no seguinte: quantas pessoas você conhece no uso?" Eu respondi, umas cinco mil. Ele emendou outra: "e quantas você conhece que pararam de usar?". Nesta hora, só me recordei de duas pessoas. Fui para o quarto, tranquei a porta, apaguei a luz, fiquei sozinho comigo mesmo e ali naquele instante eu tive um profundo despertar espiritual. Percebi que tinha caído nas garras de uma doença terrível, que mata desmoralizando, muita das vezes sorrindo e brindando. Entrar é relativamente fácil, sair é extremamente difícil. Eu posso me enganar, achar que não pega nada, que posso usar mais uma dose, mas no fundo eu sei, que para mim, uma dose de qualquer substância é muito e mil não bastam. Não tenho limites. Por outro lado, não quero ser refém de algo que não posso ter o controle. E eu me questiono, até hoje, alguém tem? Estamos lidando com um poder altamente destrutivo. Enquanto eu estou dormindo, minha doença está do lado da minha cama fazendo flexão, esperando eu acordar. Me conhece de todos os lados, ângulos e perspectivas. Sabe das minhas fraquezas, mazelas e limitações, vícios, defeitos e vontades. Preciso estar sempre vigilante, vivendo um dia de cada vez. Primeiro tive que querer, e querer muito. Segundo tive que pedir ajuda, primeiro a Deus, segundo ao meu pai, terceiro ao Levanta de Novo.  Depois de querer e pedir ajuda tive que admitir que era impotente perante o uso. Percebo que admitia, mas não queria aceitar. Muitos acham que eu queria parar assim, de boa. Até parece. Queria parar de usar crack e cocaína, mas continuar fumando maconha. Queria parar de tomar cachaça e continuar bebendo cerveja. Admitir é uma coisa, aceitar é outra. Depois da admissão, tive que trabalhar a aceitação, para logo em seguida, me render, retirar todos os mecanismos de defesa e me ver de frente. Depois agir. Vim acreditar que um Poder Superior pudesse me devolver a sanidade, pois naquela altura, já tinha perdido o controle. Enfim, partilho um pouco com vocês da minha experiência enquanto adicto em recuperação. Só posso falar de mim. O que desejo para mim, desejo para todas, que são serenas 24 horas.

muitos querendo ouro
outros sonhando com paz
alguns desejam tão pouco
outros possuem até demais

quanto custa sua alegria
nestes tempos imorais
maioria anda perdida
das coisas que são reais

sentimentos são banais 
na terra dos anormais
o que você consegue vê 
além dos bens materiais   
  
frente aos grandes capitais
regência dos maiorais 
sobrevive quem tem fé
não desistir jamais 

já passei por temporais 
testemunhei vendavais
hoje de longe observo
mandando quem ganha mais

quanto tempo passou
desde que fui resgatado
os olhos que se abriram
nunca mais se fecharam

quantos que duvidaram
em mim não acreditaram 
não estenderam a mão
ao contrário me empurraram

a estes agradeço 
de alma e coração
revelaram minha força
minha luz na escuridão

meus erros, meus acertos
meus atos disparatados 
meus piores pesadelos
neste chão dilacerados

já corri acelerado
nadando contra corrente
hoje um pouco mais sábio
tento fazer diferente 

converso com minha mente
não deixo ela divagando
ela tenta me engolir
eu que sigo mastigando

não caio no auto engano
satisfazer sua vontade
tudo vem no seu tempo
questão de prioridade  

a pé pela cidade
em meu estado natural
sigo rezando a missa
travando guerra mental


no mundo dos normais
somos tão diferentes
as vezes somos frios
outras vezes tão quentes

não há quem se contente
com sua própria imagem
a ditadura da moda 
dita sua felicidade



A Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar (ROTA) é considerada a Tropa de Elite da Polícia Militar do Estado de São Paulo e é constituída por um seleto grupo de policiais. Depois de terem sido submetidos aos mais variados testes, provas e avaliações, foram aprovados com a  missão de defender e proteger os interesses da sociedade e principalmente do cidadão. Temida e reconhecida por ser uma Instituição extremamente violenta, tem como uma de suas principais características, a cultura de atirar primeiro para depois perguntar. Seus policiais foram responsáveis pela morte de mais de 4000 pessoas no período compreendido entre 1970 a 1992. Ao contrário do que gostam de difundir e disseminar, a maioria dos indivíduos baleados não são constituídos de assassinos, estupradores e ladrões, e sim, de  pessoas simples e comuns, que nunca chegaram a cometer um delito. Em virtude disso, mais de duas mil pessoas, que tiveram sua vida ceifada, não possuem nenhum tipo de registro de queixa, ocorrência ou denúncia. Todos possuem ficha limpa, além de grande parte, exercerem uma profissão: operários, pedreiros, auxiliares, pintores, marceneiros, mecânicos, etc. A grande maioria é constituída de pessoas negras, pardas e pobres, oriundos do nordeste e moradores das periferias, em especial da zona oeste e sul, áreas com maior concentração de miséria e pobreza. A maioria dos registros e dos boletins de ocorrência seguem o mesmo padrão implantado na ditadura militar pelos esquadrões da morte: resistência a prisão seguido de tiroteio e morte. Interessante notar o baixo número de policiais mortos e feridos em pleno combate. Dos 120 policiais mortos no mesmo período, apenas 42 tiveram suas vidas ceifadas em confronto, o que corresponde a 3% do total de pessoas mortas pela polícia. Outro fato curioso, e nem por isso menos importante, é a estratégia de interferir e modificar a cena do crime. Para dificultar o trabalho dos peritos criminais, todos os corpos são levados imediatamente para os hospitais sem os documentos de identidade, que são retirados pelos próprios policiais na tentativa de impedir a identificação dos corpos no IML. O número de empresários e de ladrões ricos mortos no mesmo período não corresponde a 0,3% do total. O número de matadores é pequeno se considerarmos toda tropa, porém eles agem impulsionados sobre os aplausos e elogios de seus superiores. As chacinas e brutalidades cometidas pelos policiais são premiadas pelo alto comando com títulos, honrarias e glória, além das condecorações e promoções inerentes a carreira militar. Parcela significativa da sociedade paulista, impulsionada por radialistas inflados e por uma mídia manipulada, defende a prática de torturas e assassinatos impostos pelos policiais militares, o que confere um ar de legitimidade aos macabros atos executados. Aos excluídos e marginalizados resta a triste agonia de assistirem, passivos e impotentes, o julgamento dos envolvidos que via de regra são ouvidos, absolvidos e liberados. Raramente neste país os policiais militares são condenados pelos crimes que cometem, principalmente depois te ter sido aprovada a lei que permite aos acusados serem julgados por um tribunal especial: o militar.

Quando me deparo com qualquer artigo, livro ou ensaio sobre filosofia, sou remetido aos porões da academia, em que me via sendo diariamente tolhido, reprimido e torturado por professores distantes do verdadeiro conceito de educação e aprendizado. Longe das muralhas acadêmicas respirei ares mais elevados, tanto no âmbito artístico, científico e filosófico quanto no sentido cultural, social e histórico. A academia pode ser comparada a um restaurante que serve comida fria, vencida e mal preparada. Sua preocupação não está em servir um alimento puro e saudável, ao contrário, a prerrogativa de sua existência se deve ao ato de contaminá-la. Por quantas vezes não me alimentei dos vômitos e restos deixados por outras pessoas. As interpretações emitidas pelos professores devem ser aceitas, engolidas e mastigadas sem a mínima dose de crítica, critério e avaliação. Por outro lado, quem ousa desafiar seus conceitos, ideias e abstrações, estará condenado a viver enclausurado e isolado num vil deserto solitário, impossibilitado de se  aproximar de seu círculo íntimo, mítico e sagrado. Todos os pensadores autônomos, com perfil independente, que apresentem o menor indício de originalidade, devem ser rechaçados, excluídos e afastados, por terem ousado, pensar e criar por si mesmos, seus próprios sistemas, teoremas e postulados. No nobre círculo acadêmico não existe espaço para almas rebeldes, criativas e apaixonadas. A aquisição de títulos, currículos e rótulos depende, necessariamente, da disposição ativa do neófito em se submeter de forma passiva, omissa e covarde aos ditames emitidos pelos profissionais do ensino e do saber. Os alunos que seguirem os passos e as diretrizes impostas por seu orientador sem hesitar serão os eleitos e os escolhidos para habitarem o bem aventurado mundo acadêmico. Aos alunos que optarem por trilhar um caminho próprio resta contar com suas próprias pernas, leituras e interpretações. Por ter ousado me aproximar mais dos filósofos do que dos doutores, mestres e professores, me tornei um aluno perdido e desorientado. Incapaz de seguir os passos e caminhos por outro já trilhado tornei-me discípulo da vida. Fiel ao meu instinto e curiosidade, perambulei a esmo, por vastos corredores, que ora estavam em trevas, ora pujantemente iluminados, por escritores sombrios, esquecidos e apagados ou por figuras ilustres, reconhecidas e admiradas. As bibliotecas se tornaram minha escola e os livros meus mestres. Por vezes seguia lendo e estudando de forma metódica, analítica e organizada, por outras devorava de forma aleatória, sintética e precipitada dezenas de obras desconexas, mas todas muito bem escritas e elaboradas. Meus devaneios oníricos e literários foram consumidos, preenchidos e habitados por pessoas de vários continentes, países e estados. Não me contive ao conhecer os filósofos pré socráticos. Animadamente estendi a mão ao convite de Parmênides, Empédocles e Heráclito, Anaxágoras, Anaxímenes e Anaximandro, Tales, Pitágoras e Demócrito. Conversei por horas a fio com Sócrates, Platão e Aristóteles. No mundo das ideias encontrei várias respostas aos questionamentos de ordem metafísica e de cunho existencial. Com os filósofos pós aristotélicos descobri o valor da amizade e da postura ascética, cética, hedonista e pirrônica. Da necessidade de buscarmos o prazer com equilíbrio e moderação. Sentei-me alegremente no jardim de Epicuro e ouvi Lucrécio declamando versos em prosa, ouvi com prazer as recomendações estóicas de Sêneca e Marco Aurélio. Convivi com os filósofos Neo Platônicos, em especial Plotino, que me convidou a contemplação do Uno indizível, indivisível e inefável. Estive na França do século XVI e XVII, conversando animadamente, por horas a fio, com Montaigne, Descartes e Pascal. Na Inglaterra fui a apresentado ao empirismo inglês promovido e defendido secularmente por Francis Bacon, John Locke e David Hume. Conheci Espinoza, Leibniz e Newton. Travei intermináveis diálogos com Rousseau, Voltaire e Kant. No século XIX, enquanto vivíamos as fases tardias do romantismo, com Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e Castro Alves o velho mundo era banhado por  um conjunto de correntes políticas, econômicas, filosóficas, científicas e sociais. Fiquei hipnotizado pela escrita límpida, clara e bela, sobretudo prazerosa, de Schopenhauer e Nietzsche que podem ser considerados, por uma questão de estilo, gosto e influência, os percursores da psicanálise freudiana e das futuras pesquisas empreendidas por Carl Gustav Jung. Marx, Engels e Lenin me inspiraram revoluções no plano político, econômico e social. Bakunin, Tolstoi e Proudhon me ensinaram a questionar o Estado e a visualizar com mais clareza suas imanentes contradições. Me assustei com o liberalismo econômico proposto por Adam Smith, Thomas Malthus e David Ricardo. Presenciei o nascimento do existencialismo na Dinamarca com Kierkegaard, da fenomenologia com Bertrand Hurssel, Max Scheler, Heidegger, Merleau Ponty e Sartre e do positivismo com Auguste Comte. Depois de ter transitado pelo círculo de Viena, me aventurei pelos campos da lógica, da filosofia da mente e da matemática na Escola de Cambridge com Russel e Wittigenstein. Na escola de Frankfurt, dei as mãos à Horkheimer, Adorno, Marcuse e Erich Fromm que me ensinaram a desconfiar tanto do capitalismo americano quanto do socialismo soviético, propondo a construção de um caminho social alternativo. Na contracultura me perdi com os escritos lisérgicos e libertários da geração beat muito bem representa por Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Tive um surto de reflexões ao me deparar com Aldous Huxley e as Portas da Percepção assim como me extasiei com Carlos Castanedã e os índios mexicanos na sua busca pela verdade e o auto conhecimento. Foucault me trouxe, mais uma vez, ao chão da realidade através da sua obsessão por prisões, violência e loucura. Hoje trafego por ruas claras e escuras mas sempre munido do único propósito de aprender, digerir e ruminar, para poder absorver, expelir e repassar, não o conteúdo, e sim, a fonte.


Por sua efervescência cultural, o livro Solar da Fossa, de Toninho Vaz, merece ser lido e relido várias vezes. Nos serve como remédio, antídoto e precaução contra todo tipo de pensamento pequeno, medíocre e tacanho. Alimenta nossa crença e esperança numa possível catarse artística e cultural da humanidade. Sua atmosfera preenchida por compositores, músicos, artistas, jornalistas, cineastas, filósofos e poetas nos transporta para um universo quase onírico, romântico e idealizado. Construído no final do século XVIII, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, o antigo casarão, constituído de 85 quartos foi transformado, em 1965, numa pensão que fora zelosamente administrado por Dona Jurema. Entre seus ilustres moradores figuraram os nomes de Caetano Veloso, Gal Costa, Paulinho da Viola, Zé Keti, Ruy Castro, Maria Gladys, Betty Faria, Darlene Glória, etc. Frequentado pela elite intelectual da época, o solar seria visto como um celeiro de gênios cuja produção reverberava diretamente no cenário artístico nacional. No auge dos festivais, serviu como lugar de inspiração e criação de diversas músicas e sucessos. Condecorado como reduto da contracultura o Solar serviu de refúgio e abrigo a muitos militantes de esquerda e do partido comunista. Cristovam Buarque chegou a se esconder por lá algum tempo. Durante o ápice da ditadura, em 68, foi por diversas vezes, invadido e revistado, por agentes do Dops, que chegaram a conduzir alguns moradores aos porões do Doi Codi. O livro narra trechos de um tempo marcado pelo medo, o pânico e o silêncio, mas o viés artístico e cultural se sobrepõe de forma contundente. É impossível não se extasiar perante os relatos de quem testemunhou com seus próprios olhos a improvável reunião de um seleto grupo que chamava a atenção não só pelas roupas mas principalmente pela genialidade e talento. O livro é um convite aos corredores da casa mais bem frequentada do Brasil nos anos sessenta. Entre e Confira!



Ninguém em sã consciência ousaria negar a existência de grupos mafiosos que controlam e conduzem atividades lícitas e ilícitas pelo mundo, porém, poucas pessoas possuem noção da dimensão e da real extensão de seus escusos negócios e de sua ampla esfera de atuação e influência, sobretudo política e econômica. As principais organizações criminosas do mundo sempre tiveram grande interesse em se aproximar e se associarem, de forma discreta - mas nem por isso, menos ativa e atuante - ao principais líderes políticos do globo. A troca de favores, regida por um jogo de interesses, fez com que diversos líderes políticos concedessem, de forma vil, leviana e covarde, privilégios de toda sorte a meia dúzia de afortunados larápios da res pública. Vários exemplos podem ser colhidos e analisados folheando os capítulos da história mundial. Vale destacar a supremacia das máfias russa, italiana e japonesa, juntamente com os principais cartéis de droga da Colômbia e do México. Volumosas quantias de dinheiro são adquiridas mediante o tráfico de armas, drogas e o contrabando de produtos falsificados, sendo os mais comuns e procurados, bebidas, cigarros e eletrônicos. Porém, o crime como as organizações não são mais os mesmos, e a própria máfia, durante muitos anos, demonstrou sua vocação e perspicácia para se introduzir no seio da sociedade com uma fachada limpa e honesta. Os negócios se diversificaram e vão desde a criação de famosas redes de hotéis, restaurantes e alimentos até os domínios da especulação imobiliária. Os tentáculos da máfia não possuem limites e seus territórios são sempre ampliados seguindo a mesma lógica e perspectiva de uma empresa multinacional que busca por demanda e mercado. Quem quiser, de fato, compreender o mundo, tal como ele é, terá que perpassar o olhar sob a dinâmica teia do crime e das suas promíscuas relações com as altas esferas do poder, caso contrário, será incapaz de perceber, de forma clara, nítida e transparente a arquitetura política e econômica que nos impede de visualizar o topo da pirâmide e de nossa cadeia social.                           

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GINO RIBAS MENEGHITTI

Admiro todas as pessoas que ousam pensar por si mesmas.

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Frases de Albert Einstein

A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

A imaginação é mais importante que o conhecimento.

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

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