A
reforma do ensino médio, que deveria ser analisada, revista e discutida à
exaustão foi aprovada em três horas pelo senado e sua sanção tem gerado muita
polêmica. Os questionamentos perpassam desde o aumento da carga horária,
redução das disciplinas obrigatórias, admissão de professores até a divisão das
disciplinas por áreas de interesse.
As consequências são sentidas no baixo nível estético e ético exigido nos meios de comunicação de massa, seja na televisão, rádio ou internet. A preocupação com o belo e com os princípios éticos não estão entre as prioridades daqueles que poderiam operar uma brusca mudança comportamental coletiva. Ao contrário, primam por velar de forma proposital seus verdadeiros interesses e objetivos. Este é o verdadeiro sentido e caráter de toda ideologia.
É preciso um pouco mais de Música, Pintura e Poesia, pois é assustador o acréscimo de sensibilidade promovida pela Arte. É impressionante a quebra de paradigmas proporcionada pela Filosofia, pois ela amplia o olhar e faz o ser transitar por novas dimensões. É revolucionária a experiência catártica operada pelo Teatro, pois nos leva ao encontro de nós mesmos. Enfim, é necessário uma dose generosa de "humanidade" caso quisermos elevar a consciência do "nosso povo".
muitos querendo ouro
outros sonhando com paz
alguns desejam tão pouco
outros possuem até demais
quanto custa sua alegria
nestes tempos imorais
maioria anda perdida
das coisas que são reais
sentimentos são banais
na terra dos anormais
o que você consegue vê
além dos bens materiais
frente aos grandes capitais
regência dos maiorais
sobrevive quem tem fé
não desistir jamais
já passei por temporais
testemunhei vendavais
hoje de longe observo
mandando quem ganha mais
quanto tempo passou
desde que fui resgatado
os olhos que se abriram
nunca mais se fecharam
quantos que duvidaram
em mim não acreditaram
não estenderam a mão
ao contrário me empurraram
a estes agradeço
de alma e coração
revelaram minha força
minha luz na escuridão
meus erros, meus acertos
meus atos disparatados
meus piores pesadelos
neste chão dilacerados
já corri acelerado
nadando contra corrente
hoje um pouco mais sábio
tento fazer diferente
converso com minha mente
não deixo ela divagando
ela tenta me engolir
eu que sigo mastigando
não caio no auto engano
satisfazer sua vontade
tudo vem no seu tempo
questão de prioridade
a pé pela cidade
em meu estado natural
sigo rezando a missa
travando guerra mental
no mundo dos normais
somos tão diferentes
as vezes somos frios
outras vezes tão quentes
não há quem se contente
com sua própria imagem
a ditadura da moda
dita sua felicidade
A Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar (ROTA) é considerada a Tropa de Elite da Polícia Militar do Estado de São Paulo e é constituída por um seleto grupo de policiais. Depois de terem sido submetidos aos mais variados testes, provas e avaliações, foram aprovados com a missão de defender e proteger os interesses da sociedade e principalmente do cidadão. Temida e reconhecida por ser uma Instituição extremamente violenta, tem como uma de suas principais características, a cultura de atirar primeiro para depois perguntar. Seus policiais foram responsáveis pela morte de mais de 4000 pessoas no período compreendido entre 1970 a 1992. Ao contrário do que gostam de difundir e disseminar, a maioria dos indivíduos baleados não são constituídos de assassinos, estupradores e ladrões, e sim, de pessoas simples e comuns, que nunca chegaram a cometer um delito. Em virtude disso, mais de duas mil pessoas, que tiveram sua vida ceifada, não possuem nenhum tipo de registro de queixa, ocorrência ou denúncia. Todos possuem ficha limpa, além de grande parte, exercerem uma profissão: operários, pedreiros, auxiliares, pintores, marceneiros, mecânicos, etc. A grande maioria é constituída de pessoas negras, pardas e pobres, oriundos do nordeste e moradores das periferias, em especial da zona oeste e sul, áreas com maior concentração de miséria e pobreza. A maioria dos registros e dos boletins de ocorrência seguem o mesmo padrão implantado na ditadura militar pelos esquadrões da morte: resistência a prisão seguido de tiroteio e morte. Interessante notar o baixo número de policiais mortos e feridos em pleno combate. Dos 120 policiais mortos no mesmo período, apenas 42 tiveram suas vidas ceifadas em confronto, o que corresponde a 3% do total de pessoas mortas pela polícia. Outro fato curioso, e nem por isso menos importante, é a estratégia de interferir e modificar a cena do crime. Para dificultar o trabalho dos peritos criminais, todos os corpos são levados imediatamente para os hospitais sem os documentos de identidade, que são retirados pelos próprios policiais na tentativa de impedir a identificação dos corpos no IML. O número de empresários e de ladrões ricos mortos no mesmo período não corresponde a 0,3% do total. O número de matadores é pequeno se considerarmos toda tropa, porém eles agem impulsionados sobre os aplausos e elogios de seus superiores. As chacinas e brutalidades cometidas pelos policiais são premiadas pelo alto comando com títulos, honrarias e glória, além das condecorações e promoções inerentes a carreira militar. Parcela significativa da sociedade paulista, impulsionada por radialistas inflados e por uma mídia manipulada, defende a prática de torturas e assassinatos impostos pelos policiais militares, o que confere um ar de legitimidade aos macabros atos executados. Aos excluídos e marginalizados resta a triste agonia de assistirem, passivos e impotentes, o julgamento dos envolvidos que via de regra são ouvidos, absolvidos e liberados. Raramente neste país os policiais militares são condenados pelos crimes que cometem, principalmente depois te ter sido aprovada a lei que permite aos acusados serem julgados por um tribunal especial: o militar.
Por sua efervescência cultural, o livro Solar da Fossa, de Toninho Vaz, merece ser lido e relido várias vezes. Nos serve como remédio, antídoto e precaução contra todo tipo de pensamento pequeno, medíocre e tacanho. Alimenta nossa crença e esperança numa possível catarse artística e cultural da humanidade. Sua atmosfera preenchida por compositores, músicos, artistas, jornalistas, cineastas, filósofos e poetas nos transporta para um universo quase onírico, romântico e idealizado. Construído no final do século XVIII, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, o antigo casarão, constituído de 85 quartos foi transformado, em 1965, numa pensão que fora zelosamente administrado por Dona Jurema. Entre seus ilustres moradores figuraram os nomes de Caetano Veloso, Gal Costa, Paulinho da Viola, Zé Keti, Ruy Castro, Maria Gladys, Betty Faria, Darlene Glória, etc. Frequentado pela elite intelectual da época, o solar seria visto como um celeiro de gênios cuja produção reverberava diretamente no cenário artístico nacional. No auge dos festivais, serviu como lugar de inspiração e criação de diversas músicas e sucessos. Condecorado como reduto da contracultura o Solar serviu de refúgio e abrigo a muitos militantes de esquerda e do partido comunista. Cristovam Buarque chegou a se esconder por lá algum tempo. Durante o ápice da ditadura, em 68, foi por diversas vezes, invadido e revistado, por agentes do Dops, que chegaram a conduzir alguns moradores aos porões do Doi Codi. O livro narra trechos de um tempo marcado pelo medo, o pânico e o silêncio, mas o viés artístico e cultural se sobrepõe de forma contundente. É impossível não se extasiar perante os relatos de quem testemunhou com seus próprios olhos a improvável reunião de um seleto grupo que chamava a atenção não só pelas roupas mas principalmente pela genialidade e talento. O livro é um convite aos corredores da casa mais bem frequentada do Brasil nos anos sessenta. Entre e Confira!


