latentes viagens

Este espaço é um experimento aberto, amplo, intuitivo e original. Liberto das amarras acadêmicas, sistêmicas e conceituais, sua atmosfera é rarefeita de ideias e ideais. Sua matéria prima é a vida, com seus problemas, desafios e dilemas. Toda angústia relacionada ao existir encontra aqui seu eco e referencial. BOA VIAGEM!



Porque nos acostumamos a acreditar nos muros que nos cercam? Qual a origem da propriedade privada? Sendo Deus o criador de todas as coisas porque conferiu grande soma de vantagens, privilégios e regalias a certas criaturas? Estas perguntas deveriam ser respondidas pelas pessoas que se dizem religiosas e creem em algo superior.

Nascemos em um mundo que nos oferece perfeitas condições de existência e digna sobrevivência, porém, num belo dia, um homem resolveu cercar e delimitar certo espaço, dizendo ser seu por direito. Para convencer a grande maioria, teve que utilizar o nome de Deus e a força dos exércitos.

Como este homem conseguiu persuadir a grande maioria de que todos deveriam se curvar e servi-lo sem hesitar? Será somente sob o risco de serem lançados e queimados nas profundezas do inferno? Apenas com o apelo da razão? Durante muitos séculos, poucos homens têm se beneficiado do sacrifício de muitos. Em nome da Religião, do Estado e do Direito centenas de seres privam milhares do acesso à terra.

Não existe, como nunca existiu, nenhum testamento deixado por Deus ou por Adão conferindo legitimidade divina à propriedade privada. Habituamo-nos a acreditar que o mundo, desde que é mundo, é assim e sempre será. Os senhores da terra vociferam ao menor argumento a favor de todos e clamam, em nome de Deus, do Estado e da justiça o direito inquestionável de possuir algo que nunca foi, e nunca será genuinamente seu.

Severas contas deveriam ser prestadas por estes homens que se julgam donos da terra, que proíbem o indivíduo de atravessar o seu pasto e de ter acesso ao seu próprio terreno e local. Como podemos impedir o livre acesso de pessoas, com os mesmos direitos e deveres, aos recursos naturais? Como fomos capazes de institucionalizar, com ares de legalidade e de inquestionável autoridade, a divisão de terras e de recursos?

Uma das maiores tristezas que sinto ao subir o Morro do Cruzeiro é me deparar com uma vastidão de terra improdutiva e mal distribuída e, no fundo, pressentir e saber que muitos só terão acesso ao seu legado no fim, quando estiverem a sete palmos abaixo do solo. Sinto que fomos e estamos sendo constantemente iludidos e enganados em nome de uma suposta ordem e de um duvidoso progresso.

Somos levados a acreditar piamente na divisão dos homens entre senhores e escravos, como se fosse algo absolutamente normal, natural e necessário à manutenção do equilíbrio e arranjo social. Algumas doutrinas chegam a utilizar a religião e a ciência para defender a perpetuidade da divisão de classes. Como se não bastassem as pequenas tragédias e contrariedades do cotidiano, somos levados a crer que tudo opera em nome de nosso bem e da nossa evolução.

Mais triste ainda é perceber que todos os policiais federais, civis e militares, em sua grande maioria são recrutados na base para defender os interesses de quem é responsável por oprimir, iludir e roubar o povo.

Por que a maioria dos líderes religiosos e políticos que ousaram levantar a bandeira do humanismo, sob a rubrica do amor e da igualdade se viram de mãos dadas com a morte? Porque as pessoas que defendem a reforma agrária, principalmente no centro e norte do país são assassinadas? Porque todos os presidentes que caminham em direção ao povo são destituídos de seus cargos? Por que ainda imperam a vigência do coronelismo, do corporativismo e do fisiologismo estatal e político? São perguntas que não serão respondidas e que muitos gostariam de silenciar.

Por que certas pessoas temem as reivindicações sindicais se sabem, no seu íntimo, que nenhum direito neste país foi conquistado sem luta e esforço? Nunca na história deste país, quiçá do mundo, o povo conseguiu conquistar algum direito, sobretudo trabalhista, através do silêncio, da passividade e da omissão.

No imaginário de algumas pessoas ainda parece pairar a imagem da casa grande e dos negros docilmente recolhidos em suas senzalas. Quem acredita que todo tipo de manifestação, sindical ou não, representa um perigo e afronta aos alicerces forjados pela sociedade, deveria aprofundar um pouco mais seus conhecimentos históricos e (re) conhecer as causas e consequências de algumas revoluções.

A Revolução Inglesa, por exemplo, retirou o poder absoluto dos reis e fortaleceu o Parlamentarismo; a Revolução Francesa, com a queda da Bastilha, conseguir extinguir os privilégios do clero e da nobreza, abolindo a servidão e os direitos feudais, declarando para o mundo os universais princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.


Somente através de uma série de ações e manifestos, liderados pelo pacifista Martin Luther King, os negros americanos conquistaram certos direitos civis, entre eles o direito de votar; no Brasil, os caras-pintadas se tornaram os ícones na luta pelo direito de escolhermos diretamente o representante mor da nação: Diretas Já.

Como diria Rui Barbosa: “maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado”.


Nestes novos tempos virtuais está sendo cada vez mais raro e difícil encontrarmos amigos e pessoas com quem possamos compartilhar com honestidade e segurança nossos pensamentos, sentimentos, crenças, devaneios e opiniões. Tudo está cada vez mais rápido, líquido e superficial. A ditadura da felicidade, das belas fotos e corpos, do sorriso abertamente forçado, dos lugares paradisíacos e fantásticos, tende a nos reduzir a meros fantoches, marionetes da seita do capital. Seus fiéis discípulos ( publicitários, empresários e marqueteiros) ainda vendem a velha e carcomida imagem de fama, sucesso e poder. O canto da sereia global é amplificado por um forte apelo de cunho estritamente pessoal e comercial.
     
Como diria Pessoa, "meus amigos são bons em tudo". Mas onde estão meus amigos, quem são, para onde foram? E não digo isso num tom pessimista, ressentido ou melancólico, ao contrário. Percebo que quase todos aqueles que conseguiram amadurecer caíram nas armadilhas da vida adulta: cartões de crédito, contas, trabalho, família e responsabilidades.  Uma amiga não cansava de dizer que, depois dos trinta é muito difícil conquistar novos amigos, e ela tinha razão. Entre tantas idas e vindas, perdi vários, uns pela distância e ausência de afinidade, outros para o casamento, a família e a sociedade. Nada mais justo, normal e saudável, pena ter percebido isto um pouco tarde. Por outro lado, frases, que jamais imaginei reproduzir ou sequer pronunciar, fluem naturalmente: "no meu tempo era melhor". Somos uma geração privilegiada que, entre cabos, fios e telas, carrega consigo, de forma nítida as mais belas lembranças e recordações da infância na “sombra dos velhos quintais”.
      
Onde iremos chegar? Será a nova era ou o fim dos tempos? Ou será que cada qual respira, vive e trafega pelas dimensões por si mesmo criadas? Onde estão sendo travadas as principais discussões científicas sobre a física quântica e a duração de vida do planeta Terra? Podemos pensar em controle de natalidade, redução de gases na atmosfera, divisão de bens, dinheiro e terra? Onde repousa a verdade, senão no coração de quem tem olhos e ouvidos para ver e ouvir os apelos de um planeta que a cada dia, sofre, adoece e morre.    

Os alimentos estão sendo plantados, colhidos e vendidos, sob o comportamento individualista e histérico de imediatistas latifundiários. No campo político, já nem sei enumerar as contradições jurídicas, econômicas e sociais. Na esfera do poder, propriamente dito, os interesses continuam sendo os mesmos, e suas firmas e cifras vão bem obrigado.

Os tentáculos do grande capital se agigantam e assumem vários nomes, rostos e identidades. As máfias estão bem distribuídas pelo globo e grande parte de seus lucrativos negócios já estão limpos e lavados.  A indústria bélica nunca lucrou tanto com estas pequenas guerras de grande duração. As mesmas nações, no mesmo ponto e espaço geográfico, sendo constantemente alvo de ataques yankee, mas tudo se resume numa teoria da conspiração infundada, cujo olho que tudo vê, nada mais é do que fruto de uma imaginação pueril e fantasiosa, que cria para si e para o outro, mundos místicos e sobrenaturais.
 
Cansado da polarização de discursos, ideias e opiniões, confesso que o discurso das minorias, a postura romântica e ingênua de jovens idealistas guiados e seduzidos pelo politicamente correto e o grito de legalização, do aborto às drogas, já não exercem o mesmo fascínio ou encanto. Ainda carrego o martelo e a foice, mesmo diante de tantos exemplos negativos, autoritários, totalitários e ditatoriais. O socialismo ainda é a mais bela bandeira, mesmo que por ora esteja timidamente hasteada nos corações e mentes de jovens rebeldes, utópicos e revolucionários. O discurso marxista está fora de moda, mas ceder aos apelos da direita, jamais. O Brasil foi vendido e entregue aos interesses multinacionais.

Me recuso a discutir política com quem não seja minimamente esclarecido, mas está sendo difícil acreditar, que pessoas que um dia comungaram da mesma ideia e ideal, abraçaram, abertamente, discursos fascistas e neoliberais, carregados de ódio e desprezo pelo sangue e suor alheio. Nada demais, na republiqueta das bananas e das grandes corporações midiáticas. Não por acaso, um dia, Roberto Marinho disse que o Globo (ele nunca dizia a Globo) era o que era muito mais por aquilo que não dizia, do que por aquilo que publicava.

Não me assusto com o nível de ignorância das massas, afinal, nunca ouvi de forma exaustiva, cansativa e maçante, música clássica nas rádios comerciais, nunca vi Faustão, Xuxa e Gugu declamarem por horas a fio, poemas de Cecília Meireles ou de Vinícius de Moraes. Nunca vi um jornal divulgar e reproduzir ipsis litteris as obras e clássicos dos grandes gênios e mestres da humanidade. Vou ficar por aqui e sorrir, por ter alguém com quem ainda conversar. Existem pessoas neste mundo que conseguem retirar de nós o melhor, e você é uma delas, caro leitor. Boas reflexões!

não escrevo para doutor
com título debaixo do braço
escrevo para gente simples
do andar de baixo

sim eu sou escravo
minha moral é decadente
fruto do ressentimento
do orgulho da minha gente 

por aqui quem mente 
ocupa os melhores lugares
assumindo vários cargos
posição de destaque 

o justo tem piripaque
diante do jogo político
encenação de atos 
de discursos vazios  

dinheiro corre como rio 
o capitalismo é selvagem
vejo políticos chafurdando
como porcos na lavagem

qual o preço da viagem
quando nada lhe interessa
mergulhado em ilusão
pouco prazer que lhe resta

espero o fim da sua festa
com o olhar estatelado
do outro lado da rua 
com um demônio sentado

não escrevi nenhuma tese
nenhum artigo literário
mas conheço a ciência
praticada pelo sábio 

sou apenas mais um louco
buscando sua vontade
pela voz da consciência
vivendo pela verdade

modernidade líquida
mundo artificial
mas a fatura é concreta
no contrato virtual

bem vindo ao mundo real
onde dinheiro contamina
fortalecido por papel 
mais do que por vitamina

cuide da sua vida 
não se importe com ninguém
se você está em paz
então está tudo bem

para quem curte diz amém
e vê se compartilha
mas não esquece aquela foto
para poder postar no insta

logo mais estou na pista 
aberto para negócio
em busca de investimento
e de mais um rico sócio

enriquecer é óbvio
maior sentido da vida 
construir uma grande casa
e uma bela família 

onde está a sua filha 
agora neste momento
perdida em si mesma
ou na selva de cimento?

o que se passa por dentro
nem sempre se reflete 
numa mesa de bar
apenas o cego se diverte

sem nenhum projeto 
plano e objetivo
vou canalizando
atingindo alto nível

saber desinteressado 
a única prerrogativa 
para a verdadeira arte
para o artista que cria

 
Nestes novos tempos virtuais, principalmente nas redes sociais, é comum nos depararmos com inúmeros posts e comentários nascidos de um engano ou mal-entendido gerado por um suposto erro de comunicação. Num eterno papo de surdo e mudo as pessoas parecem ter pedido a capacidade de interpretar um texto e ler nas entrelinhas. Poucos se dão ao trabalho de ler e refletir, digerir e ruminar o conteúdo, deixando, desta forma, escapar o seu sentido e essência.  

Como se isso não bastasse, uma enxurrada de opiniões são lançadas e emitidas sem nenhum tipo de critério ou avaliação, inundando a rede de uma série de conceitos e preconceitos que são diariamente repassados e reproduzidos, de forma irrefletida e inconsequente, em alta escala e velocidade, atingindo milhares de pessoas e lugares ao mesmo tempo.

Uma das maiores preocupações filosóficas de todos os tempos, permanece viva, ativa e operante, transcendendo os corredores da história e do tempo: a busca pela verdade. A verdade é sempre associada às questões estéticas (belo), éticas (justiça) e morais (bem) e sua imagem, forjada por um prisma romântico e poético, pode ser comparado a um espelho que reflete de forma clara, límpida e fidedigna, o brilho de sua luz, cujos raios dissipam todo tipo de dúvida, angústia e incerteza. 
 
No período clássico da Grécia Antiga (500-338 a.C.), Platão, filósofo e matemático ateniense, discípulo de Sócrates, mestre de Aristóteles já nos fornecia os primeiros elementos para que pudéssemos visualizar a diferença entre o conhecimento popular (denominado senso comum, representado pela opinião e adquirido através da experiência e vivência empírica) do conhecimento da verdade, realizado através da busca e investigação filosófica, mediante conceitos lógicos, matemáticos e abstratos.

Acredito que seja de extrema valia e necessidade, para quem quiser construir um argumento lógico, o estudo da lógica: nada mais óbvio. Se por um lado somos obrigados a admitir que o nível das discussões ainda permanece restrito aos “ismos e achismos” de seus interlocutores, por outro nos resta reconhecer que o espaço virtual se transformou, para o bem ou para o mal, na ágora* moderna.       

Polêmicas discussões são alimentadas e mantidas no intuito de defender e convencer o outro do nosso ponto de vista e opinião. Hercúleo esforço é despendido na tentativa de nos fazermos ouvidos, entendidos e aceitos. Não por acaso os gregos reverenciavam a peithó, a arte da persuasão, como uma divindade. Quem detinha o dom da retórica e da oratória era aclamado e reverenciado, o que lhe conferia prestígio, status, e claro, poder.

O debate, assim como a discussão, além de promover e ampliar a compreensão e o entendimento, são elementos indispensáveis na construção do conhecimento e na manutenção da democracia. Na inútil tentativa de evitar o atrito, o conflito e a discórdia, milhares se esquecem ou simplesmente ignoram que o raciocínio dialético nasce justamente do embate e da tensão entre os opostos.

Porém, quantas amizades estão sendo desfeitas e repensadas após infindáveis réplicas e tréplicas desgastantes e desnecessárias? Uma coisa é colocar o argumento acima da amizade, outra é abrir mão de expressar a nossa opinião. Se uma amizade se rompe por este motivo, vale a pena repensarmos nosso conceito de amizade.  

Afinal, o que queremos quando publicamos ou postamos qualquer tipo de comentário? Na melhor das hipóteses ampliar o horizonte da discussão, tornando pública uma reflexão privada. Se eu digo que não penso igual a você, você tem várias opções, entre elas, de levar para o lado pessoal ou simplesmente aceitar o fato de existirem pessoas que pensam diferente. E pensar diferente de você é totalmente diferente de estar contra você. Será que temos essa maturidade e compreensão?

Até que ponto conseguimos aprofundar uma discussão apenas na esfera dos fatos e das ideias sem cairmos na dimensão particular e pessoal? Será que vale a pena abrirmos mão daquilo que temos de mais sagrado: o direito de expressarmos abertamente nossa opinião, seja ela qual for, para mantermos por perto pessoas que se revoltam e se mordem à menor contrariedade?

Ou não seria extremamente vantajoso saber, como hoje sabemos, que existem pessoas do nosso meio que defendem o fascismo, a homofobia e a tortura?  Não seria tão ingênuo a ponto de acreditar cegamente em tudo que leio assim como não seria tão leviano para não reconhecer o valor do sangue derramado de meus irmãos para que eu pudesse ter o direito à liberdade de expressão.

Enquanto isso, intermináveis disputas são travadas aos olhares atentos e ansiosos dos doadores de like. Se nos primórdios combatíamos nas arenas, passando pelo espetáculo dos gramados, hoje, apesar das limitações e dificuldades encontradas pela falta de manejo, traquejo e trato com a língua, nossos gladiadores e craques estão migrando, de forma lenta, contínua e necessária, para o mundo das palavras e do pensamento. Grande salto qualitativo de nossa nação.   

*Ágora era o lugar em que os gregos se reuniam para discutir e debater os seus problemas políticos e sociais.  


Mais uma vez assistimos estarrecidos, desesperançosos e inertes à vitória do retrocesso e do desrespeito aos mais caros direitos, duramente conquistados pelos trabalhadores. Em nome do progresso e da modernização da legislação trabalhista, milhares de empresários, legitimamente representados pela maioria no Senado, saem sorrindo mediante a aprovação irresponsável de uma medida que visa acima de tudo, interesses próprios e particulares.

Os sindicatos deverão ser exorcizados e sua existência demonizada, como se não tivessem tido nenhuma participação ativa na histórica luta pela aquisição e manutenção de direitos. Todos os trabalhadores deverão se curvar perante a carta magna do capital. Cada qual deve ser responsabilizado pelo seu fracasso pessoal, social e profissional.

Através de um apelo emocional e sincero devemos fazer com que todas as pessoas de bem se conscientizem da encenação promovida por todos os pobres e miseráveis. Se existe algum culpado pela sua extrema condição de penúria e miséria, são eles mesmos, e assim lavamos nossas mãos perante aos que amam se fazer de vítimas e pobres coitados.

 A história se repete. Desde a abolição da escravatura, todo e qualquer movimento ou levante que vise à elevação ou melhoria de nosso povo deve ser fortemente atacado e rechaçado, na base da força e do golpe. Para tanto, é necessário utilizar de todos os meios e formas: mídia, justiça e política.

Os donos do poder, leia-se um por cento da população brasileira, conseguiram, de fato, através do uso do mito e de repetidas e reiteradas afirmações arbitrárias, persuadir grande parte da sociedade de que o maior responsável pelos problemas do país é o Estado e sua incapacidade de administrar e gerir a coisa pública.

A melhor saída, nestes casos, é entregar nossas riquezas e patrimônios nas mãos de empresas privadas e de pessoas mais bem preparadas, aquinhoadas e competentes: eles próprios. Os meios de comunicação de massa ao deturparem a imagem do Estado, passaram a dar todo crédito e mérito às leis “reguláveis” do mercado.

O mercado, assim como seus agentes, aparece como uma entidade invisível e abstrata, impessoal e universal, cujos princípios emanam de sua autorregulação natural e espontânea, promovida pela concorrência e pela competitividade, pela lei de oferta e demanda. O Estado, por sua vez, é retratado como particularista e pessoal, corrupto e partidário.

O papel central dos pseudo-sábios da mídia e do jornalismo é a idiotização da classe média, que por sua natureza soberba e orgulhosa, não se reconhece ou se admite povo e ignorante. Mesmo diante de tantos fatos e acontecimentos nem desconfia que também está sendo cegamente conduzida e manipulada pelas mãos do consumismo e do conformismo político e ideológico.

Os miseráveis, herdeiros diretos da senzala, são responsáveis pelo serviço braçal, bruto e pesado. Aos escolhidos pelo sistema e possuidores de grandes patrimônios, cabe o legítimo direito e dever de explorar e manter à sua revelia e critério este atual estado de coisas.

A escravidão no Brasil é um ideal mantido às ocultas, mas hoje, através da reforma trabalhista, revela sua face mais dura e cruel. Por muitos anos, a elite maquiou este fato, de modo que o discurso mais vendido e aceito é o da vitimização por parte dos pobres e excluídos.

Bastou a parte mais pobre da sociedade frequentar os aeroportos para que os mais ricos não demorassem a demonstrar sua indisfarçável insatisfação, comparando-os a rodoviárias. A presença dos mais pobres no shopping e universidades incomodou profundamente uma ala conservadora, branca e elitista, que se considera superior e acima de seus conterrâneos.

O ódio aos mais pobres é claro e explícito, e cada qual parece amar o seu opressor. O Brasil é um país majoritariamente formado e constituído de miseráveis, contudo eles mesmos, ao atingirem certo status social, se tornam, repentinamente, convertidos à seita maligna do capital.

Acreditando nas suas qualidades e na sua vontade de vencer na vida se julgam exemplos a serem seguidos e admirados, como se suas trajetórias pudessem resumir e atestar uma infalível receita de sucesso perfeitamente aplicável e praticável por todos. Mal sabem que sua vida, assim como seus interesses são dirigidos por quem está vários degraus acima.

Mesmo com a corda no pescoço, pagando escolas e hospitais privados, a classe média brasileira não se rende à evidência de que existe uma rapinagem e um sórdido jogo econômico muito acima do que possa imaginar sua débil inteligência.

Cheios de si e fartos dos outros, estes seres posam felizes para as fotos, de forma leve e descontraída, alegre e despreocupada, esquecendo-se que o preço a ser pago é alto: a escravização de si e do outro.

 O poder do povo, ou a democracia, mais uma vez, deixa de ser exercida em função dos interesses daqueles que dizem nos representar. E assim caminhamos em direção à ruína de muitos e à riqueza de uns poucos. E continuo me perguntando: até quando?


Vivemos em uma época marcada pelos extremos e pela intolerância, em todos os níveis, sentidos e aspectos: políticos, sociais, raciais, sexuais e religiosos. Se você defende e sustenta determinado ponto de vista, com unhas e dentes, corre o sério risco de ser crucificado e apedrejado pelas mãos da covardia, do medo e da ignorância.

A não aceitação de um mundo plural, múltiplo e diverso faz com que as pessoas se aferrem e se apeguem demasiado ao seu modo único e exclusivo de agir, sentir e pensar. Não somos seres padronizados, criados com o mesmo código genético e portadores dos mesmos princípios e valores, nem mesmo os éticos e morais.

No campo político, as opiniões são emitidas como se estivéssemos disputando uma acalorada partida de futebol, em que cada qual torce e defende de forma apaixonada o seu time do coração. Ataques e ofensas são remetidos e lançados com a mesma fúria e intensidade de uma torcida organizada aos integrantes e membros do time e torcida adversária. Não existe nenhum apelo legítimo à razão e a paixão conduz, de forma cega e irrefletida, os discursos e discussões, que levados às últimas consequências geram brigas, intrigas e inimizades, basta analisar o número de pessoas excluídas de nosso Facebook devido ao seu posicionamento político e ideológico.

No contexto social, por razões históricas, políticas e econômicas existe um abismo intransponível entre os mais ricos e os mais pobres, sendo os primeiros contemplados com os melhores serviços e atendimentos, desde hotéis a restaurantes até hospitais e escolas. Aos segundos, cabem se contentar com a velha e carcomida afirmação, "querer é poder" que lança ao indivíduo toda responsabilidade pelo seu insucesso e fracasso. Não seria exagero dizer que um dos verdadeiros motivos para o golpe foi a presença da periferia nos shopping, universidades e aeroportos.

A questão racial é ainda mais sutil e velada, até porque, durante muitos anos, o Brasil foi considerado um país cordial e alegre, despido de intolerância e preconceito. Esta imagem e conceito vem sendo paulatinamente desconstruída, desmentida e desmitificada: ainda faltam muitos aspectos para serem revistos, discutidos e sanados. A quota é medida paliativa e provisória, cabe aos agentes públicos ofertarem um ensino público de alto nível e qualidade, principalmente de base, nos primeiros anos do pré escolar.

Na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, a teoria dos gêneros nos ajuda a visualizar os prejuízos e danos causados por uma sociedade milenarmente machista e patriarcal. Os movimentos feministas e LGBT avançam na conquista de espaços e direitos, mas suas causas, infelizmente se transformaram em bandeiras políticas levantadas majoritariamente por partidos de esquerda. A direita, por sua vez, constituída pela famigerada bancada BBB, do boi, da bíblia e da bala, nega e rejeita o apelo emitido por determinados grupos, que injustamente rotulam de "minoria".

Na esfera religiosa, ao contrário do que poderíamos supor ou imaginar, as discussões são acirradas e movidas pelo ímpeto da fé e das circunstâncias. Num país considerado cristão, seria comum esperar uma postura de maior amor, respeito e compreensão por parte das pessoas, principalmente daquelas que assim se denominam. A intolerância religiosa transforma qualquer conversa em disputa, e qualquer diferença em discussão. A tensão é gerada a partir do momento em que quero lhe convencer de que a minha religião é melhor que a sua, de que o meu Deus é maior que o seu, de que a minha religião é a única detentora da verdade e capaz de garantir a salvação.

Os motivos que nos levam a separar, denegrir e difamar as escolhas e preferências alheias, quando não determinadas pelo puro e simples preconceito, se encontram no nosso baixo nível de aceitação ao novo, ao outro, ao diferente. Rever nossos conceitos e refletir sobre certas posturas e opiniões é um convite diário necessário ao reequilíbrio, ao bom senso e ao convívio civilizado.

Não temos o direito de julgar ou condenar as opções existenciais e pessoais de cada ser. Vivemos em uma sociedade livre e democrática, aberta à pluralidade de ideias, conceitos e opiniões, à diversidade de credos, gêneros e partidos. Nenhum ser humano deve se arrogar o papel de juiz, nem se sentir vítima passiva de preconceitos e abusos físicos ou verbais, psicológicos ou sociais.

A falta de entendimento e consenso entre as pessoas tem gerado um ambiente negativo de desrespeito, desavenças e exclusão. A discussão que deveria permanecer no campo das ideias, se desvia para o âmbito particular e pessoal, isso quando não parte para a violência física e agressão.

Políticos que defendem abertamente a volta da ditadura e assumem posturas fascistas, pastores que condenam o irmão pela sua orientação sexual, pessoas que segregam outras pela sua cor ou posição social. Até quando iremos fechar os olhos a estas questões e fingir que nada está acontecendo? Mil vezes pecar por excesso do que por omissão.

o mundo passa no noticiário

ando ocupado, já vou me atrasar

não tenho tempo para ouvir o medo
pois o meu sossego pode se assustar

não atropele o meu pensamento
pois neste momento quero caminhar
 
guarde pra si todas suas certezas
pois a natureza manda eu duvidar 

para a verdade mostro o desapego 
pois tenho receio de me aprisionar

não se incomode com os meus acordes
pois quem ama sofre até desafinar

veja meu rosto, minha triste face
peço não se afaste, quero te abraçar

não fecha a porta, abre a janela
deixe a fresta aberta, para eu entrar

não se arrisque por qualquer desejo
mas me dê um beijo, antes de sonhar

já não me importo com o julgamento
nem um pensamento pode me alterar

se vivo agora, sou filho do tempo
não tenho tormento para lamentar

conheço a selva e os seus segredos
quebrei mil espelhos para me encontrar



A dependência química é uma doença progressiva, incurável e de determinação fatal que afeta o corpo, a mente e o espírito do usuário atingindo todas as áreas da sua vida: social, familiar e profissional, interferindo nas relações consigo, com o outro e com Deus. Apesar da complexidade do assunto, tentarei resumir e apresentar os principais aspectos e sintomas da doença. 

O caráter progressivo da doença pode ser facilmente identificado no gradativo aumento do uso e da dosagem. O dependente químico, à medida que se aprofunda no uso de drogas, apresenta uma grande tolerância aos seus efeitos, o que o leva a usar doses cada vez mais elevadas para poder obter o mesmo efeito inicial. O perigo e risco de uma overdose é real e sempre se faz presente. O uso, assim como o próprio dependente, pode ser comparado a uma bomba relógio, com a desvantagem de todos ignorarem a hora e o momento que a mesma irá explodir.   

É uma doença incurável, porém tratável e pode ser controlada assim como a diabetes. Os tratamentos, assim como os motivos que levam as pessoas a interromper o uso são inúmeros, e variam de indivíduo para indivíduo. Muitos pararam ao conhecer o amor de sua vida, ao adentrarem um templo religioso, ao se consultarem com psicólogos e psiquiatras ou simplesmente por perceberem que algo não estava “certo” em suas vidas.  A maioria, porém, só realiza o pedido de ajuda quando atinge o fundo do poço.   

É uma doença de determinação fatal, isto é, seu uso contínuo, ininterrupto e prolongado pode ocasionar a morte. Além da overdose, temos acidentes de trânsito, envolvimento com traficantes e policiais, roubos e assaltos, brigas e discussões, delírios e surtos, rompantes e paranoias que levam o usuário a cometer os mais diversos tipos de atos e violência, contra si e o outro. É comum, nos recintos destinados ao tratamento dos usuários (grupos e comunidades terapêuticas) a seguinte afirmação: só existem três destinos para o dependente químico na ativa, os famosos “3 c”: clínica, cadeia e cemitério. 

O aspecto físico da doença é a compulsão, uma vez que se tenha iniciado o uso, o indivíduo apresenta dificuldades em parar. Isso acarreta um inevitável e visível desgaste físico: perda considerável de peso, presença de olheiras e mau funcionamento dos órgãos, desde o sistema circulatório ao respiratório; do nervoso ao digestivo. Todos os órgãos são afetados, a médio e longo prazo, apresentando lesões e danos irreversíveis, como no caso do cérebro e dos neurônios. Pode-se afirmar, com plena convicção, que o corpo do usuário é alterado de forma profunda e permanente: mesmo depois de ter interrompido o uso, as sequelas serão sentidas e mantidas pelo resto da vida. 

O aspecto mental da doença é a obsessão, o intenso desejo de usar. Os pensamentos, assim como a vida, estão voltados para o uso, para os meios e formas de obter a todo custo a primeira dose de sua droga de preferência. Pensamento gera sentimento que gera ação. É necessário mudar a matriz mental, fazendo com que o usuário se conscientize, além da sua doença, da importância de sua reforma íntima e moral. 

Para isso, faz-se urgente a adoção de três princípios espirituais básicos: mente aberta, boa vontade e honestidade. Mente aberta para poder apreender os princípios básicos da recuperação, pois sabemos que é impossível enxertar uma ideia nova numa mente fechada. Boa vontade para aplicar os princípios apreendidos em todas as áreas de sua vida. E o principal, honestidade para poder falar de si mesmo sem restrição, reconhecendo sentimentos, nomeando emoções e se confrontando quando necessário. Somente através do autoconhecimento o dependente irá se avizinhar da sabedoria e da maturidade. 

O aspecto espiritual da doença, ao contrário do que muitos místicos, exotéricos e religiosos poderiam supor, não está ligado ao lado oculto e invisível da existência, mas diretamente relacionado aos hábitos mantidos durante sua vida, as pessoas e lugares de sua convivência. É necessário que o dependente evite e se afaste de pessoas, hábitos e lugares, caso queira se manter firme em seu propósito e decisão de interromper o uso e permanecer limpo.   

Para finalizar, gostaria de convidar todos os lopoldinenses para conhecer o Grupo Levanta de Novo, que apoia e auxilia os dependentes químicos e seus familiares. Localizado na rua do Sapo, Bairro Quinta Residência, o grupo oferece reuniões fechadas (somente para dependentes) aos sábados e segundas, e abertas para o público na quinta, todas às sete e meia da noite. 

Não existe melhor remédio para um adicto do que o próprio adicto em recuperação. A busca por um grupo de mútua ajuda é um dos tratamentos mais eficazes e seguros no controle da dependência, sendo a frequência regular e contínua o melhor antídoto contra o risco de quedas e recaídas. Fica o convite!

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GINO RIBAS MENEGHITTI

Escritor, Filósofo, Poeta, Ensaísta, Político, Rapper, Dependente Químico, Militante Ativo do PC do B, Técnico Administrativo do CEFET, Membro de Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e Grupo Levanta de Novo. Ministra Palestras Gratuitas sobre Dependência Química e assuntos relacionados a Política, Educação e Cultura em Geral. Áreas de Interesse: Filosofia, Literatura, Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Cinema, Música, Biografias, Dependência Química, Estudo das Artes e Religiões.

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Frases de Albert Einstein

A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original.

O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário.

A imaginação é mais importante que o conhecimento.

Se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. O trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada.

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